Poemática por Nuno Guimarães
Publicado a 15 de Abril de 2012



 


E a matemática pediu namoro à poesia, mostrando-lhe todas as suas qualidades que passavam por sinais aritméticos de riqueza, campos cheios de raízes quadradas e um coração infinito, onde cabiam todos os números perfeitos, como convém a quem se quer apaixonar. Ela, a poesia, achou-lhe graça. Encontrou-lhe alguma métrica e deixou-se deslizar em hipérboles que sendo linguísticas a levaram a exageros que nem o teorema de Pitágoras conseguira resolver. As incógnitas desta relação eram muitas, atendendo às suas personalidades ímpares, com números primos à mistura. Foram vivendo numa matriz de entendimento construída por rimas pouco lógicas e amores em fracções de denominador comum que sustentavam médias de paixão numa POEMÁTICA difícil de teorizar…

Nuno Guimarães - ex-engenheiro, leitor de Português nas Universidades de Vilnius e de Vytautas Magnus (Kaunas), com manias de poeta…


Artigo de Abril

 

    Título: A irracionalidade das coisas


às vezes é assim… esperamos toda a noite pelas gotas de sol que nos
molhem os olhos incapazes de fechar. depois adormecemos
lentamente, aguardando que ela, a noite, nos venha com o escuro,
acordar. sono irracional. aconchegado pelo calor do sol e pela
ausência do negro, quando a irracionalidade das coisas toma conta de
 nós. brinca com o mais ínfimo neurónio do nosso ser e conta-nos as
coisas indescritíveis da vida. aquelas em que por tão irracionais que
 são, aparecem somente desenhadas no surrealismo de telas de
 museu ou nas paredes do manicómio, cuspidas por delírios de loucos
 que se julgam Deus.

a irracionalidade das coisas é bela…
não sei de repararam nas conversas das borboletas ao luar…

a irracionalidade das coisas é tão bela…
não sei se repararam nos sorrisos das crianças, a chorar…

a irracionalidade das coisas é estupidamente bela…
não sei se repararam que o amor se esconde nos bolos de chocolate
 e de canela…

a irracionalidade das coisas é irracionalmente bela…
não sei se repararam nos números irrequietos que deslizam
 nas diagonais dos quadrados…
que irracionalidade, que loucura! escorregam em brincadeiras
 perigosas, deixando um rasto de casas decimais infinitas. usam raízes
 quadradas… como se as raízes pudessem ser quadradas… como se
fosse possível as árvores terem assim as raízes. quadradas, enterradas
 numa irracional terra cúbica rodando em torno de um irracional
paralelepípedo brilhante, o sol. estes números são completamente
 insanos. estes números são completamente irracionais. de uma
 irracionalidade tal que me deixa numa delirante escrita matemática à
procura de Fídias, Fibonacci, da razão sagrada, do número de Deus,
do divino número de ouro que me permita ficar para sempre do lado
 desta irracionalidade bela das coisas…



Artigos de meses anteriores:

 

 
 

Artigo poemática de Fevereiro - "as operações do amor"


Artigo poemática de Janeiro - "Números em Catadupa"


Artigo poemática de Dezembro - "Uma progressão de Natal"


Artigo poemática de novembro - "Números de Outono"

 

Artigo poemática de outubro - "Teorema dos Amor dos Conjuntos Infinitos"


Artigo poemática de setembro - "As Contas Todas"