Professor Fernando Pádua - Nós somos o que comemos: vegetais, fruta...
Publicado a 26 de Abril de 2012

Entrevista de Maio - Professor Fernando Pádua - Médico Cardiologista

 


   

Fernando Pádua é o convidado de Maio do clube spm. De coração aberto a um ritmo pausado e assertivo responde com um batimento perfeccionista, sem arritmias nem cortinas de fumo. Uma entrevista com circulação pela infância, pela matemática, a medicina e, claro o futuro. Estes serão os nutrientes e as vitaminas de uma conversa sem grandes acelerações mas tratando-se de um excelente exercício cuja leitura não tem contra-indicações. Sem dietas, sempre oxigenada, desprovida de gorduras e patologias, esta conversa tem um diagnóstico: "é (im)própria para cardíacos". Mas para que não fique com o coração dividido, temos a prescrição médica do professor: "dar uma corrida ao stress".


No mês do Coração, Maio, vamos medir o pulso ao...professor Fernando Pádua que do fundo do coração respondeu assim...  


Quer-nos “contar” um pouco da sua infância?

Infância um pouco atribulada: nasci em Faro, segundo filho de Carlos Maria Paraíso de Pádua e Irene Archer Eyrolles Moreira Paraíso de Pádua. Deserdado pelos primos, meu Pai (órfão desde os quatro anos) resolveu tentar o Brasil, e a minha Mãe, com dois filhos e uma filha, foi viver para Almodôvar (terra de origem de meu avô materno). O Tio Fernando, irmão do meu Pai, ficou para sempre no Brasil onde fez família. O meu Pai voltou e empregou-se na Duarte Ferreira, no Tramagal, para onde fomos todos.

As minhas primeiras recordações de infância são de Almodôvar (a minha casinha, brincadeiras em casa da minha tia Eugénia, ou na Praça da República com o Avô), e do Tramagal onde aprendi a ler “de cabeça para baixo” (sentado em frente da minha Mãe, que ensinava o meu irmão mais velho, Carlos, as primeiras letras); tinha um ribeiro à porta de casa onde “fiz vista” a passear dentro de água com as botas de borracha que nos mandara a Tia Natália, da Bélgica; e atravessávamos o Tejo, de barco a remos, para ir a Abrantes. Ainda no Tramagal entrei na escola primária; fui ao futebol com o meu Pai e apanhei com uma bola no nariz. Comecei a ler “O Senhor Doutor” (revista infantil desse tempo) em casa dos Duarte Ferreira, aos 7 anos (esta é a primeira vez que recordo, por escrito, esses tempos).


Como era o Fernando Pádua com 10 anos de idade na escola? E na aula de matemática?

Na Escola da Penha de França, recordo-me que fui bom aluno, pelo menos na 4ª classe. Sabia muito bem a geografia do País, mas não recordo a matemática. Disseram-me como se faziam os meninos e não acreditei. Lutei com um gang na rua – no 1º encontro vi o meu irmão lutar e não o ajudei – era entre dois, entendi não interferir. Censurado em casa, num segundo ataque fizemos uma dupla e vencemos os outros! Duas vizinhas, jovens e bonitas, recebiam em casa um senhor que visitava a Mãe delas. O Tio João falou-me de sexo, a pedido dos Pais.

Entrei para o Liceu Gil Vicente e portei-me mal. Aluno de dez, onzes e dozes, ia chumbando por faltas, a jogar futebol e a apanhar caracóis. Trocei do Professor de francês, o que recordo com vergonha pois me tinha ajudado. Paguei o papel selado, para justificar as faltas, trabalhando em casa: vinte centavos por lavar uma porta. Quis namorar mas não tive coragem de me aproximar dela.

Mudámos de casa para ficar perto da Empresa Duarte Ferreira em Lisboa – sorte minha, pois fui transferido para o Liceu Passos Manuel, onde havia disciplina.


Gostava de estudar e trabalhar matemática?

No 2º ano obtive um dia 13 valores, num exercício de português, a segunda melhor classificação da aula! Afinal posso ser bom aluno!!! E comecei a estudar. No 4º ano fui o 2º em Latim. No 5º o “feroz” Professor de Matemática distribuía zeros e valores negativos. Comprei dois livros de problemas e no fim-de-semana fiz TODOS os exercícios. Tive 19 ou 20 valores, não estou certo. Acabei o último ano tendo as classificações mais altas do Liceu.


Como surgiu a medicina na sua vida?

Queria ir para a Universidade, mas com a guerra e o desemprego faltava dinheiro em casa. O meu irmão Carlos foi para a Escola Industrial, e cedo começou a trabalhar na CUF. A minha Tia Maria Archer, escritora de altos voos, publicou um conto sobre mim e “o pelicano a abrir o peito” (a Mãe), que ainda hoje me faz chorar. Marcelo Caetano procurou-a: “esse rapaz existe ou é um conto de ficção”? “É meu sobrinho”! “Vamos arranjar-lhe uma bolsa”. Felizmente para o meu orgulho não foi preciso, pois conquistei uma Bolsa de Estudos Oficial.

Medicina (que o Tio-Avô, farmacêutico alentejano, desejava e eu também) ou Engenharia, mais dentro das minhas evidentes aptidões? Em Junho admissão em Medicina e entrei. E ia aprender “integrais” e mais não sei quê, que o Liceu não ensinava, mas o Instituto Superior Técnico exigia. Um Assistente (mais tarde Director do IST!) ofereceu-me explicações, mas, inesperadamente, foi chamado para a tropa.  Se já passei em Medicina, assim seja!


A matemática que aprendeu é (contínua) importante na sua profissão?

Tarde me apercebi! A meio do Curso o Professor Eduardo Coelho deu-me 19 valores, e convidou-me para trabalhar com ele. Preferi esperar pelo fim do Curso para tomar uma decisão – acabei e fui trabalhar com o melhor cardiologista português! Entrei em trabalhos de investigação, que mais tarde, quando conquistei uma bolsa da Rotary International Foudation, me abriu as portas da Universidade de Harvard, em Boston, USA.

E que investigação, cá e lá? Eletricidade e eletrocardiogramas. Forças espaciais tridimensionais na Tese de Doutoramento em Vetocardiografia. “O nosso motor”, fluidos, hemodinâmica e pressões intra-cavitárias, doenças cardíacas valvulares e sopros cardíacos, e fonocardiografia; mecânica e provas de esforço – engenharia pura, números, matemática afinal!


Entender matemática e preservar a saúde não deveria ser um problema…

Quanto à Matemática não sei – embora, como contei, trabalhando muito cheguei lá! Mas creio que há uns mais dotados que outros. Em Física (no curso de Físico-Quimico-Naturais na Faculdade de Ciências) levantei-me no meio de 200 colegas para corrigir um erro de cálculo no quadro, do Prof. Manuel Valadares, que pedira ajuda! 

Na Saúde a dificuldade está em que lidamos com comportamentos e como se sabe os hábitos instalados são difíceis de mudar. Estou contudo cada vez mais convencido de que o erro primordial está em que as crianças não nascem ensinadas, e os pais não sabem fazê-lo, ou falham no exemplo! E os professores… também não são ensinados a ensinar Saúde!!!


Tudo começa na escola. Por que razão a prevenção para a saúde falha neste meio?

“Tudo começa na Instrução Primária” dizia o Prof. Cid dos Santos na Faculdade de Medicina. A prevenção falha, porque poucos a cumprem, e não são motivados para isso. Até a disciplina de Saúde acabou! Nos últimos anos, dentro e fora do País, a minha orientação até mudou: tentei modificar o comportamento dos adultos o que está a ser mais difícil, mas hoje creio que a resposta está nos sub-20, como lhes chamei (do zero - antes da concepção – até aos dezanove anos de idade).

É difícil parar de fumar, readquirir hábitos de exercício, apreciar mais vegetais e fruta, abominar o sal, preferir peixe, reduzir carne, gorduras e doces: todos estes comportamentos já estão mais do que enraizados aos 20 anos, e é um sacrifício mudar. Demos esse conhecimento aos Sub-20 para eles decidirem por si mesmos o que querem da vida também em termos de saúde. E ninguém pensa nos miúdos, enquanto miúdos, dão-lhes tudo. Quando nos aproximamos deles para falar de saúde, afinal estão sequiosos de aprender, e chegam a educar os Pais! Almodôvar abraçou um projecto inovador: em 5 anos, transformar-se em “O Concelho mais saudável”, numa parceria entre a Fundação Professor Fernando de Pádua e a Câmara Municipal de Almodôvar. E a nós dois a Fundação Calouste Gulbenkian se quis espontaneamente associar!


O INCP e a Fundação Fernando Pádua têm oxigenado a saúde em Portugal. O que é que já foi conseguido nos últimos anos?

Antes das gerações actuais nascerem (anos 72, e já atrasado pelas criticas que logo despertei) iniciei por todos os meios a Educação para a Saúde das nossas populações, usando e abusando de palestras, jornais, revistas, rádios e sobretudo TV – a mais democrática forma de ensinar porque até os mais iliteratos e iletrados aprendem, lendo e ouvindo aulas de graça – reduzimos em 30-40%, em 10 anos, a mortalidade por enfarte do miocárdio e por AVC.

Com a ajuda também dos progressos médicos, a redução vai em 50 - 60% mas agora custa a baixar. Porquê? Porque só em adultos começamos a pensar em doenças e a protestar por consultas, hospitais e urgências! Begin by the begin! Os sub-20 são a grande resposta, e com eles muito pouco se faz. Estamos a ter rapazes e raparigas gordos e preguiçosos, adolescentes diabéticos e hipertensos: e queremos começar a modificar os comportamentos em adultos? Com hábitos errados e enraizados? A nossa esperança de vida até já começou a baixar!!!


Os números indicam que se continua a morrer muito em Portugal do Coração. O tabaco e a má alimentação são os principais problemas?

O tabaco é a causa nº 1: fumadores desde os 10-11 anos quanto custa mais tarde parar? (em vontade e em dinheiro, continuando afinal a gastar 4 € por maço por dia!).

O sal é o segundo – 15 a 20 gr por dia e devia ser menos de 5!!! Salgados e hipertensos desde os sub-20!!!! É a hipertensão, nossa doença nº 1, da qual deriva quase tudo o resto (só, ou acompanhada por outros fatores de risco). Vi-a ser vencida, em Boston, com dieta rigorosa, sem sal (< 1 g/dia) quando ainda não havia remédios. Estamos com uma lei que limita a 14 g /kilo de pão… “Nós somos o que comemos”: vegetais, fruta, leguminosas, peixe, sem sal, dar-nos-iam os 120 anos, mas preferimos comer gorduras, molhos, fritos e alimentos preparados cheios de sódio. Mas… em Portugal até somos o que comemos e o que bebemos: desde o insucesso escolar, mortes ao volante ou na construção civil, violência doméstica e fora de casa, demência até! Estamos a perder os ganhos em saúde porque chegamos a adultos já perdedores. Nos USA 150000 entrevistados, para saber quem faz as 4 coisas mais simples que reduzem 80%  das doenças não transmissíveis – não fumar, andar a pé, controlar o peso, e comer vegetais nas 4 refeições: 7% ! Enquanto os 93% caminham “alegremente” para um fim mais precoce e mais doente!!!


A saúde em Portugal está em insuficiência cardíaca?

Ao contrário do que Descartes dizia, o bom senso falta-nos a todos – e por isso só lutamos por hospitais, urgências, milagres, quando o imprevenido acontece.


O matemático Albert Einstein dizia que “a maioria de nós prefere olhar para fora e não para dentro de si mesmo”. O que acha?
«A saúde é por demais importante para estar só nas mãos dos médicos – cada qual tem de aprender a tomar conta da sua»! Somos capacíssimos para dizer aos outros, em todos os campos, aquilo que devem fazer. «Bem prega Frei Tomaz, faz o que ele diz e não o que ele faz!».


Mais de 50 anos na prevenção da saúde em Portugal. Para onde corre Fernando Pádua?

Defendo há 50 anos a promoção da saúde (e a prevenção das doenças). Digo sempre que corro para os 120, vivo, activo e saudável! E corro também pela Pátria de Pessoa – quero que a minha voz, e os meus conselhos, possam também ajudar os outros portugueses, lá fora e lá longe, onde quer que estejam!


Por Carlos Marinho





Notícia de apresentação em 26.04.2012

 


 

Entrevista do mês de Maio - Professor Fernando Pádua


O convidado do clube spm de Maio é o professor Fernando Pádua. Uma vida dedicada à medicina e às causas da saúde o nosso entrevistado é um grande especialista em cardiologia. 


De coração aberto a um ritmo pausado e assertivo responde com um batimento perfeccionista, sem arritmias nem cortinas de fumo. 


Uma entrevista com circulação pela infância, pela matemática, a medicina e o futuro, estes serão os nutrientes de uma conversa sem grandes acelerações mas tratando-se de um excelente exercício cuja leitura não tem contra-indicações.


No mês do Coração, Maio, vamos medir o pulso ao...professor Fernando Pádua. Dia 1.