Poemática por Nuno Guimarães
Publicado a 15 de Maio de 2012



  


E a matemática pediu namoro à poesia, mostrando-lhe todas as suas qualidades que passavam por sinais aritméticos de riqueza, campos cheios de raízes quadradas e um coração infinito, onde cabiam todos os números perfeitos, como convém a quem se quer apaixonar. Ela, a poesia, achou-lhe graça. Encontrou-lhe alguma métrica e deixou-se deslizar em hipérboles que sendo linguísticas a levaram a exageros que nem o teorema de Pitágoras conseguira resolver. As incógnitas desta relação eram muitas, atendendo às suas personalidades ímpares, com números primos à mistura. Foram vivendo numa matriz de entendimento construída por rimas pouco lógicas e amores em fracções de denominador comum que sustentavam médias de paixão numa POEMÁTICA difícil de teorizar… 

Nuno Guimarães - ex-engenheiro, leitor de Português nas Universidades de Vilnius e de Vytautas Magnus (Kaunas), com manias de poeta… 


Artigo de Maio

 

    Título: Uma questão de coração


decididamente
deixou de ser uma questão de matemática
inubitavelmente
desenquadrou-se de qualquer teoria
passou ao lado de leis e operações
perdeu-se em caminhos pejados de incógnitas
passeou-se por equações de grau elevado
e soluções impossíveis
à noite, principalmente à noite
pesava quilos e quilos de palavras
por dizer
despertava filósofos e matemáticos 
que viviam nas brumas
procurando identificar a razão 
da sua existência
foi perseguida pela inquisição
não tendo no entanto sido encontrada
qualquer religiosa motivação
à noite, principalmente à noite
chorava
contrariando todos os princípios matemáticos
que de lágrimas não percebiam nada
pensou-se poder ser um elemento geométrico
um polígono com muitos lados
ângulos apertados, causando sofrimento e dor
recusado!
demasiado evidente, devido à intensidade
que variava com a distância
e com a ausência
de algo não identificado
conclusivamente
deixou de ser uma questão de matemática
não!
aquela saudade
era simplesmente uma questão de coração