Manuel António Pina - Um dia, já no 3º ano, o professor de Matemática
Publicado a 01 de Julho de 2012

Entrevistado de Julho - Manuel António Pina

Matemática - Clube SPM
 

     

Manuel António Pina é o entrevistado do clube spm de mês 7. Escritor, jornalista, advogado, cronista, poeta o nosso convidado tem uma vida preenchida por diversas áreas calculadas por um algoritmo bem definido. Natural do Sabugal, foi aos dezassete anos na cidade do Porto que criou as melhores soluções e raízes. Licenciado em Direito, em Coimbra, foi jornalista do JN durante mais de 3 décadas. Em 2011 recebeu o prémio Camões, uma distinção só ao alcance dos melhores escritores, tornou-se assim um caso notável. Sem muitos cálculos, com uma álgebra acessível, com uma grande probabildade de termos respostas simples, sem incógnitas nem números infinitos, perspectivada por vários ângulos, a geometria desta entrevista vai directa à vida Manuel António Pina. Este é o espaço dos resultados desta entrevista. Tem a palavra...

 

Nasceu na Beira Alta, no Sabugal. O que recorda com mais saudade da sua terra natal? 
Saí do Sabugal com apenas três ou quatro anos e tenho poucas recordações desses tempos. E nem sei bem se são recordações ou se terão sido coisas que minha mãe me contou e eu integrei na memória como recordações minhas; mas a memória é justamente isso: uma construção que permanentemente fazemos de nós mesmos. Provavelmente uma parte dessas recordações será memória vivida, outra memória construída a partir da memória de minha mãe. 
São duas essas recordações, as mais antigas que tenho. Na primeira, um miúdo que brinca comigo atira o meu chapéu de palha para uma fonte e eu recuso-me a ir buscá-lo porque isso seria humilhante, voltando para casa cheio de medo que minha mãe me ralhe por ter perdido o chapéu. 
Na segunda estou sentado numa cadeira de pernas altas (dessas em que é de uso sentar à mesa as crianças, com um cinto que as aperta pelo peito para não caírem) e minha mãe está a dar-me o pequeno-almoço. A certa altura ouvem-se gritos na cozinha, onde minha mãe tinha posto ao lume, num fogareiro de petróleo, água para dar banho ao meu irmão mais novo. Meu irmão tinha mexido no fogareiro e a panela com a água a ferver caíra-lhe em cima (ainda hoje tem uma pelada na cabeça resultante desse acidente). Minha mãe, muito aflita, pois pensava que a água a ferver cegara meu irmão, pega nele ao colo e sai de casa a correr em direcção à casa do médico. Entretanto, o fogareiro, tombado, pega fogo à cozinha. Eu estou preso à cadeira, aterrorizado, sem poder fugir. E acaba por ser uma vizinha que, vendo fumo a sair pela janela, entra em casa, apaga o fogo e me liberta, levando-me consigo. 
São, como se vê, pequenas tragédias, que, no entanto, recordo com saudade - não por serem tragédias mas por serem os únicos episódios de que me lembro da minha infância no Sabugal. Lembro-me ainda, muito vagamente, de uma amiga de minha mãe, a sua melhor amiga, a quem eu chamava Tia Céu, que - isso lembro-me de que foi minha mãe quem me contou - me ajudou a criar. Foi ela quem, na recordação do chapéu de palha, acabou por o ir buscar, pois eu, apesar das ameaças de minha mãe, continuei até ao fim a recusar-me a fazê-lo.  
  
Como descreve a sua infância? 
Não sou capaz de "descrevê-la". Depois do Sabugal, vivi até aos 7 anos em Castelo Branco, onde meu pai, funcionário público, fora colocado e, desse período, tenho já muitas recordações, umas felizes, outras infelizes, mas não as bastantes para poder fazer uma "descrição" da minha infância (até porque, de novo, a maior parte dessas recordações são também "tragédias infantis", desde um pássaro de que gostava muito e me fugiu até a leiteira que todas as manhãs nos levava o leite a casa ter julgado que eu era uma...menina; fiquei horrorizado e nunca mais quis vestir a "balalaika", uma espécie de bibe-túnica com que minha mãe me vestia, culpando-a, à "balalaika", de me fazer parecer menina). 

Lembra-se da sua escola e das aulas de matemática com 10 anos de idade? 
Sim, lembro. Aos 10 anos frequentava, no Instituto Vaz Serra, em Cernache do Bonjardim, o 1º ano do liceu (actual 5º ano), e as disciplinas de que mais gostava, e onde sempre tive melhores notas, eram o Português e a Matemática. 

Teve algum momento em que a matemática o tenha marcado? 
Sim. Um dia, já no 3º ano (actual 7º), o professor de Matemática chamou-me ao quadro, como muitas outras vezes, para eu fazer, diante dos meus colegas, a correcção de um teste onde eu tinha tido a melhor nota da turma. A certa altura escorregaram-me os óculos e, como tinha a mão suja de giz, não quis levá-la à cara e fiz um trejeito com o nariz para tentar fazer subir os óculos, o que pôs toda a turma a rir. O professor, julgando que eu estava a fazer troça dele, ou a fazer-me engraçado, chegou-se a mim e deu-me uma bofetada. Ainda hoje me lembro do nome desse professor: Mendes Nunes. Durante muitos anos, praticamente até à idade adulta, alimentei os mais terríficos sonhos de vingança contra ele. Já deve ter morrido, mas ainda não lhe perdoei aquela humilhação e, se calhar de o encontrar no Outro Mundo, acho que a primeira coisa que faço é devolver-lhe a bofetada (com os juros destes anos todos, e ainda mais IVA) e só depois é que lhe digo a razão... 

É licenciado em Direito em Coimbra. Até quando a matemática fez parte do seu percurso académico? 
Até ao 6º ano do liceu (actual 10º ano), pois a minha primeira intenção, quando entrei no Secundário, era seguir a área que dava acesso à Academia Militar, por ser ensino superior gratuito, já que meus pais não tinham meios para que eu pudesse frequentar uma universidade (na altura só havia universidades em Lisboa, Coimbra e Porto, e nós vivíamos então em Oliveira do Bairro, perto de Aveiro). Entretanto descobri que havia um curso que poderia ser feito sem obrigatoriedade de assistir às aulas (e de ter que residir em Lisboa, Coimbra ou Porto). Era Direito, curso que apenas existia em Lisboa e Coimbra. Por isso, voltei a repetir o 6º ano, desta vez na área [a chamada "alínea e)] que dava acesso a Direito. Fiz todo o curso de Direito sem ter assistido a uma única aula, apenas ia a Coimbra (quase sempre à boleia, porque não podia pagar o comboio) fazer exames e frequências. 

Como descreve a sua paixão pela escrita? 
Lá está outra coisa que não é possível "descrever". O que posso dizer é que, desde os 6 ou 7 anos, sempre escrevi versos. Até hoje, que já vou quase nos 70. 

A sua literatura tem sido selecionada para manuais escolares. Como define essa experiência? 
Como uma grande responsabilidade que, ao mesmo tempo, me alegra e me inquieta. Quando escrevo raramente imagino que venha a ser lido. É certo que, pelo simples facto de escrevermos numa língua comum, existe sempre um leitor potencial daquilo que escrevemos. Mas é um leitor hipotético e muito distante. Ora quando, numa escola ou numa biblioteca, encontro leitores daquilo que escrevo, esse leitor potencial ganha, de repente, um rosto e uma identidade concretos. Quando um texto meu surge num livro escolar, essa identidade concreta é ainda genérica (os eventuais leitores de um determinado ano de escolaridade), mas a sensação de inquietação é semelhante. Com o tempo, no entanto, e com a multiplicação de presenças de textos meus em livros escolares, fui-me habituando. 
Ao que nunca me habituei, e me revolta sempre, é o atrevimento de alguns autores de livros escolares que se arrogam o direito de alterar, ou "resumir", o que escrevi. É um abuso intolerável e revela total desconhecimento do que é a literatura: forma. Alterar a forma de um texto literário cai até sob a alçada do Direito Penal de Autor. Não fora eu uma pessoa pouco conflituosa e já teria metido alguns desses ignorantes em tribunal criminal.  

Em 2001 escreveu um livro infanto-juvenil de/com matemática “Pequeno livro de desmatemática”. Fale-nos um pouco desse livro. 
São versos, talvez um pouco loucos, de "temas" matemáticos, da aritmética à álgebra. São versos simples, embora às vezes escondam matérias um pouco mais complexas (num "poema" em que a personagem é uma raiz quadrada, por exemplo, está "escondido" o Teorema de Abel). Na parte final, tentei, de forma que quis que fosse divertida, falar - mesmo correndo o risco do didactismo - de noções como o zero, o π ou os números imaginários. 

Miguel Torga, Sofia de Melo Breyner, Virgílio Ferreira, José Saramago, Eugénio de Andrade, António Lobo Antunes, Jorge Amado são nomes que ganharam o prémio Camões. Como se sentiu em 2011 quando soube desta sua distinção? 
Embaraçado. 

Que opinião tem sobre o acordo ortográfico? 
Embora distinga a língua da ortografia, acho que, se o objectivo desse acordo era a unificação ortográfica, o resultado foi um desastre. Mais: adoptando a fonética como critério da ortografia, surpreendente seria se isso não acontecesse, de tal maneira a fonética do Português é diversificada, mesmo dentro do próprio país.  

Pitágoras escreveu que “a Matemática é o alfabeto que Deus usou para escrever o Universo”. O que acha? 
Talvez Deus seja, de facto matemático. Mas há nisso uma petição de princípio: a natureza conforma-se com as leis matemáticas porque as leis matemáticas resultam da observação da... natureza. O problema é saber se existirão ou não leis ou noções matemáticas que sejam puras construções do espírito, e isso é duvidoso. Costuma dar-se o exemplo de que, se acontecesse, por hipótese, a natureza comportar-se de acordo com as normas do xadrez (o bispo movendo-se na diagonal, a torre na vertical e na horizontal, o cavalo duas casas em frente e uma para o lado, etc.), movimentos todos eles puras construções do espírito, poder-se-ia afirmar que Deus é xadrezista. Das noções matemáticas é problemático dizer o mesmo. Há quem aponte noções físico-matemáticas como as de universo finito mas ilimitado ou de espaço curvo com puras construções do espírito, mas há igualmente quem conteste isso.  

O matemático e filosofo francês René Descartes disse que “o bom senso é a coisa melhor partilhada no mundo”. Em Portugal… 
Em Portugal parece-me que é mais a insensatez. Deus foi muito generoso com os portugueses, sobretudo com aqueles que chegam hoje a lugares de decisão política, no momento de distribuição não só da insensatez mas ainda da falta de coragem e da hipocrisia. 
  
Outro matemático Bento Jesus Caraça referiu que “as derrotas só existem aquelas que se aceitam”. José Saramago disse também que o que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas”.  Portugal está como a matemática…tem muitos problemas. A matemática tenta-os resolver e Portugal? 
Portugal (entenda-se: quem fala e age em nome dos portugueses), tenta hoje resolver os graves problemas económicos e financeiros que tem da pior maneira: persistindo no erro e em soluções que já se revelaram, noutros lugares, catastróficas. Persistir no erro ou em soluções que já se verificou que conduzem ao erro, é coisa impensável na Matemática. 

A matemática do Manuel António Pina é… 
...uma forma de emaravilhamento ("o binómio de Newton - diz Pessoa/Álvaro de Campos - é tão belo como a Vénus de Milo, o que há é pouca gente para dar por isso").

Por Carlos Marinho



Noticia dia 23 de Junho 


Manuel António Pina - Entrevistado do clube spm em julho- Dia 1!

   


Manuel António Pina é o entrevistado do clube spm em Julho. A literatura é o tema escolhido. Os livros, o jornalismo, a advocacia, a matemática são temas a ler nesta entrevista. Será que o galardoado com o prémio Camões 2011 gostava de matemática quando era estudante? No dia 1 de julho saberemos a resposta a esta questão e a muitas mais.


Aqui fica uma resposta dada por Manuel António Pina na entrevista, já sabe dia 1, domingo.



 Lembra-se da sua escola e das aulas de matemática com 10 anos de idade?
 
Sim, lembro. Aos 10 anos frequentava, no Instituto Vaz Serra, em Cernache do Bonjardim, o 1º ano do liceu (actual 5º ano), e as disciplinas de que mais gostava, e onde sempre tive melhores notas, eram o Português e a Matemática.