Entrevista com Daniel Catalão - Jornalista da RTP
Matemática
Publicado a 31 de Janeiro de 2013

Entrevista com Daniel Catalão - Jornalista da RTP


   

Daniel Catalão, jornalista da RTP é o convidado de fevereiro do clube spm. Em canal aberto através de downloads precisos, responde sem teleponto nem imagens desfocadas. Uma entrevista com um grande plano pela infância, televisão, matemática, ensino, investigação e as novas tecnologias através do seu programa da RTP "Dicas de Internet". 

O que guarda Daniel Catalão no disco rígido da sua memória? E a matemática terá sido privatizada da sua vida? E as "Dicas de Internet" navegam a que velocidade? 

No mês mais pequeno do ano de 2013, fevereiro, vamos noticiar uma excelente entrevista de índole matemática e tecnológica de abrir qualquer telejornal com um simples clicar de dedos a menos de uma password bem simples: Daniel Catalão.   


Nasceu no norte do país. Que “noticias” nos pode dar da sua infância?
Vivida em Bragança, na rua com grandes grupos de miúdos a correr e a jogar futebol, a andar em carrinhos de rolamentos e em aventuras intermináveis. Era um pequeno diabinho sempre a fazer disparates e a desafiar o proibido.

O que guarda no “disco rígido” da sua memória com 10 anos de idade na escola?
As reguadas! Sim, na altura, quem se portava mal, ficava com as mãos a assar! Levava nas palmas das mãos, as mesmas onde escrevia a numeração romana (que tanto me custou a aprender!) para não fazer má figura no quadro! Guardo o cheiro do papel, do lápis e da borracha. Dos recados que fazia à professora e que tinham sempre uma recompensa. A régua dela era rija, quando me portava mal; mas a recompensa era doce, quando vestia a pele de anjinho!

Em que “canal” via a matemática na escola?
Na primária (básico), seria o Panda da altura porque até foi divertido e não tive grandes problemas. As coisas complicaram-se no ensino preparatório (agora 5º ano)! A partir daí, passei a ver a Matemática no que seria um canal de filmes de terror!  Muitos problemas e uma dificuldade extrema.


Em algum momento pensou em “privatizar” a matemática na sua vida?
A nossa relação sempre foi muito difícil, por isso privatizei-a muito cedo. Encarei-me com ela, novamente, no ensino superior, em Métodos Quantitativos! Disse à professora que iria deixar a cadeira para o fim! Ela insistiu! Insistiu! Que tentasse! Tentei! Lutei contra o “monstro”. Tirei 14! 



Façamos um link para a vida profissional. Onde esteve o “login” do jornalismo?
Só sonhei ser duas coisas na vida: piloto aviador e jornalista. O sonho de piloto voou rapidamente porque era um zero a matemática (embora tivesse dado para astronauta uma vez que andava sempre com a cabeça na Lua!). O link para o jornalismo começou após o nono ano. Vários professores meus me aconselharam a seguir Humanidades porque essa era a minha via. E foi no “Liceu” que comecei, com colegas, a fazer jornais clandestinos fotocopiados a criticar o que achávamos estar mal. No 12º ano comecei a fazer rádio, quando terminei o secundário fui selecionado para um curso na Agência Lusa (a minha grande escola), onde trabalhava quando entrei para a RTP. Entretanto, escrevi para o Público e colaborei com a TVI.

É jornalista da RTP, professor e está a realizar um doutoramento. O que ensina e o que pretende investigar?
O jornalismo é uma paixão e uma forma de vida. É isso que ensino na Universidade Lusófona do Porto. Sempre enquadrando a profissão no novo contexto digital. E é nesse contexto que estou a fazer um doutoramento em Media Digitais na FEUP. A minha proposta de investigação prende-se com a reformatação do Serviço Público de Media (já não apenas de rádio e televisão). Um serviço público que não se faz de um operador para consumidores, mas em conexão e curadoria tirando partido das novas e ágeis formas de produção de conteúdos.

Fazer televisão é a sua “banda larga”?
Sim! Hoje, já não vivo sem estar na televisão e na internet!

A empresa Google batizou o seu motor de busca aproveitando a matemática, através da grandeza e magnitude do número Googol, criado pelo matemático Edward Kasner (http://pt.wikipedia.org/wiki/Googol)  (10 elevado a 100). Foi  um bom “download”?
Magnífico! O que seria de nós sem Google? Hoje já não há dúvidas existenciais!! O Google tem a resposta!! É a bússola global para a internet. Mas acho que também é justo salientar e ter uma palavra de admiração pelo trabalho que tem sido feito em Portugal pelo Sapo! Começou por ser a “as páginas amarelas” da nossa net e é hoje um motor, não de pesquisa, mas de inovação e incentivo à criatividade tecnológica.

Escolha um “bug” da nossa sociedade que o levaria a fazer um “error checking”...ou um simplesmente “delete”...
Vou dizer apenas que é lamentável não podermos fazer CTRL+Z (undo) à nossa vida, de vez em quando!!

É atribuída ao matemático Albert Einstein a frase “tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade.” Um comentário?
Criámos um mundo que já não conseguimos dominar nem compreender. Andamos muito mais depressa do que a nossa capacidade de adaptação. Há novos conceitos e parâmetros de atuação instintivos aos nativos digitais e que são difíceis de compreender para quem fez a transição do analógico. Andamos a tentar regular um mundo novo com regras do passado. Acho graça quando se fala em direitos de autor e se tenta controlar a partilha livre de ficheiros com conceitos da era do analógico, do material, da cassete, do disco!! Piratear, hoje, significa partilhar. É difícil de compreender, eu sei! Mas vão lá explicar isso a um miúdo! Só conseguiremos dar passos certos quando abandonarmos os conceitos censórios tradicionais. É preciso um novo raciocínio, um novo argumentário para nos convecermos todos que vamos ter de começar a pagar por serviços na internet. Como? Esse é o desafio! Mas se pensam que vamos lá com polícia e com trancas em servidores, estão muito enganadinhos!! Nós criámos o monstro, mas vão ser os miúdos de hoje a dominá-lo. Nós já não vamos lá.


Dicas da Internet tem sido um sucesso. Uma dica sobre o programa...
Partilhar de tudo o que existe na internet de forma simples e clara. Mostrar serviços e sites que podem ser úteis a vários níveis. Ajudar as pessoas a navegar por este universo interminável.

A RTP e o slogan “somos o primeiro a chegar”. A password para ser primeiro é...
Tr@b@lho.


Por Carlos Marinho