Entrevista Clube SPM a Francisco Ferreira - Quercus
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Publicado a 31 de Março de 2014

Entrevista Clube SPM a Francisco Ferreira - Especialista em Ambiente (Quercus)

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Francisco Ferreira da Quercus é o nosso convidado do mês de abril. Foi Presidente da Quercus de 1996 a 2001, sendo membro da Direcção Nacional desde Março de 2001, tendo assumido o cargo de Vice-Presidente em Março de 2007. Tem coordenado projectos de investigação no domínio das alterações climáticas e avaliação da qualidade do ar. Na Quercus coordena as áreas das alterações climáticas e energia. Para melhorar o ambiente, aqui fica a entrevista:


Como define a sua infância?
Foi uma infância feliz, com muitos amigos e atividades, da ginástica aos escuteiros, passando por um amplo contacto com a natureza, próprio de quem nasce numa terra privilegiada como Setúbal, com o Sado e a Arrábida tão perto. Acho que estive sempre bastante ocupado! O facto de ter três irmãos substancialmente mais velhos, mais 20, 19 e 10 anos respetivamente, sendo que um deles aliás lecionava Matemática no Instituto Superior Técnico, foi determinante no contato com realidades científicas, sociais e culturais muito diferenciadas e que viriam a moldar o meu futuro. 

Com 10 anos foi aluno da Escola Preparatória de Bocage, em Setúbal. Que tipo de aluno era o Francisco?
Se falamos de notas posso dizer que era um bom aluno – e não o único numa turma de grande diversidade mas com a grande maioria dos colegas muito interessados em aprender e participar. Com todas as atividades que tinha também é difícil que nessa idade fosse classificado como se dedicasse exclusivamente ou demasiado ao estudo. Acima de tudo gostava de participar e muito de “ensinar”, pelo que mais tarde me viria a realizar através da minha profissão.

Como era o ambiente nas aulas de Matemática?
Estava numa turma com colegas dedicados, quer em termos de amizade, quer de aprendizagem, pelo que o ambiente não podia ser melhor. Num dos anos a professora de Ciências Naturais era também a professora de Matemática, pelo que fazíamos uma boa ligação entre as duas áreas. O gosto pela matemática viria a seduzir-me e atualmente faço investigação e sou professor na área da engenharia do ambiente na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, dedicando-me a áreas como a qualidade do ar e a estatística aplicada a problemas ambientais.

Desde quando é que notou a sua sensibilidade para as causas do ambiente?
Tudo começou precisamente nos 5º e 6º ano – por influência de colegas mais velhos do então Liceu de Setúbal, atual Escola Secundária de Bocage, eu e alguns colegas integrámo-nos na Liga para a Proteção da Natureza. Nessa altura começámos a fazer sessões devidamente preparadas com guiões e mostrávamos diapositivos a outros alunos da nossa escola e de outras sobre os principais temas ambientais. Passei a estar envolvido em campanhas como a da criação da Reserva Natural do Estuário do Sado, que viria a ser concretizada em 1981, Seguiu-se depois o Projeto Setúbal Verde e mais tarde este viria a ser integrado na Quercus em 1987. 

 


O que é a Quercus?
A Quercus é uma organização não governamental de ambiente, isto é, é uma associação que reúne certa de quatro mil associados, com estruturas repartidas por todo o país (os núcleos regionais) e grupos de trabalho especializados em determinadas matérias como conservação da natureza e biodiversidade, energia e alterações climáticas, resíduos, água e educação ambiental. Acima de tudo procuramos defender os interesses das populações em relação às questões ambientais, promovendo um desenvolvimento sustentável.

A Quercus tem defendido a causa do ambiente nas últimas décadas. Em linhas gerais, quais são as prinicipais preocupações ambientais em Portugal? 
Portugal tem problemas de ordenamento do território que originam consequências negativas para a saúde das populações (má qualidade do ar, ruído, por exemplo). Temos um país com uma enorme biodiversidade e riqueza paisagística que não temos sabido aproveitar, e que é uma garantia fundamental para uma atividade económica relevante como o turismo. Precisamos de melhorar a qualidade de vida das pessoas através de uma mobilidade mais sustentável. Há espécies em risco de extinção, há rios cuja qualidade da água devia ser melhorada. Muitos progressos têm sido feitos, mas Portugal tem de olhar para oportunidades baseadas num uso mais eficiente dos seus recursos, investindo naqueles que são renováveis e tão importantes como a pesca, a cortiça, entre outros.  

 


Neste inverno temos assistido à revolta do mar sobre a nossa costa. No verão temos os incêndios. Que riscos corremos actualmente?
As alterações climáticas estão a alterar ao longo das últimas décadas os padrões meteorológicos que eram relativamente estáveis. Passámos a ter mais eventos extremos, onde se incluem tempestades no Oceano Atlântico com influencia direta nas nossas costas, onde uma ocupação errada da costa, ajudada pela falta de sedimentos retidos nos rios pelas barragens e obras costeiras cujo impacte não se avaliou devidamente, estão a causar enormes efeitos negativos no litoral. Por outro lado no Verão, estamos com um aumento da frequência das ondas de calor, com riscos acrescidos de incêndio, também aqui agravados pelo tipo de floresta que temos e que devia ter sido melhor planeada para lidar com esta ameaça. É indispensável assim adaptarmo-nos, isto é, prepararmo-nos seriamente e com o maior rigor técnico possível, para um clima em mudança e para as suas consequências. 

 


A pegada ecológica tem a ver com a matemática? O que é?
A pegada ecológica é uma aproximação à área do planeta capaz de gerar recursos renováveis para um habitante. A matemática é fundamental como base do conjunto de cálculos, alguns complexos, que ponderam o a energia, a água, outros recursos, que nos permitem chegar a um valor final do número dos chamados hectares globais usados por cada pessoa. Infelizmente, para uma população crescente, e com um uso também crescente de recursos em diversos países, já estamos a utilizar mais planetas do que aquele em que vivemos, isto é, já estamos a utilizar muitos recursos não renováveis que no fundo representam a nossas poupanças que se estão a esgotar. 

 


O Minuto Verde é uma rubrica...
Diária, desafiante e única. 

O que pode fazer cada português para melhorar o ambiente?
Muito! É no dia-a-dia, nas nossas opções de consumo, de uso da água, da energia, da mobilidade. Por exemplo, podemos escolher produtos alimentares locais, da época, com menos embalagem, de preferência adquiridos diretamente junto do produtor num mercado. Podemos encaminhar corretamente os resíduos e acima de tudo evitar o desperdício. Trata-se de conseguir reduzir custos, usando melhor os recursos do planeta, e através de pequenas mudanças de comportamento conseguirmos dar o nosso contributo para um desenvolvimento mais sustentável.

Se pudesse o que reciclava em Portugal?
A reciclagem, não nos podemos esquecer, só vem depois da redução e da reutilização. Ainda temos uma margem de reciclagem enorme para muitos materiais. Numa interpretação mais lacta da pergunta, era capaz de reciclar alguns dos decisores que não têm a visão estratégia de futuro que o ambiente requer☺.                                      

O matemático Galileu Galilei escreveu que “o livro da natureza foi escrito exclusivamente com figuras e símbolos matemáticos.” O que acha?
A imagem de Galileu de que a natureza, como que decorre, de uma construção matemática, deve acima de tudo lembrar-nos para usar o nosso conhecimento científico e as ferramentas matemáticas que temos à disposição para traçarmos um futuro para a sociedade com desenvolvimento económico, inclusão social e respeito pelo ambiente, proporcionando uma melhor qualidade e vida para as próximas gerações. É só fazer bem contas, recorrendo mais uma vez à matemática, e percebe-se que é um bom investimento.


Por Carlos Marinho