Entrevista Clube SPM a Nilton - Humorista
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Publicado a 01 de Maio de 2014

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O nosso convidado do mês de maio é o humorista NiltonNo perímetro desta conversa fala-nos como tudo começou e da sua paixão pela sua profissão, sempre com uma métrica bem centrada e otimizada ao pormenor. Noutros quadrantes fala-nos dos seus tempos tangentes à escola e das secantes à matemática, não esquecendo outras prioridades familiares que estão no seu horário nobre. Autor de ideias como as “Teorias de Nilton”, “Supcelente”, “Paga o que deves” ou “O Pai Natal não Existe”, Nilton é hoje um dos humoristas mais versáteis e importantes da comédia nacional. Nilton é um “caso notável” do humor em Portugal.
Toma o café da manhã muito cedo na RFM e está na RTP (à sexta-feira) quando faltam "5 para  meia-noite", nos intervalos entre outras coisas proporciona entrevistas matemáticas com esta geometria:
 
A sua infância foi a/de rir?
Foi a rir. Tenho por princípio ser bem disposto. Tenho a sorte de ter uns pais bem dispostos, muito divertidos e com grande sentido de humor. Os meus irmãos e os amigos são também divertidos. Sempre encarei a vida na lógica da desconstrução. Desde pequeno descobri que gostava de humor, o que é óptimo.
 
Porquê apenas Nilton como nome artístico?
Eu tenho mais nomes, como é natural. O Nilton vem do facto, de ter nascido em Angola, de ter um pai com algum humor, até nos nomes e ter uma mãe chamada Pérsia. Lá em casa não existem nomes normais, decidi assinar Nilton para não me baralhar, tipo, Madona. Evita confusões, embora já me tenham chamado Wilson ou Lipton, fora isso, evita que as pessoas se enganem.
 

O Nilton a matemática era “Supcelente” ou fazia parte da equipa titular?
Supcelente, supcelente (ri)...eu faço parte daquela geração que a matemática parecia um bicho de sete cabeças, alargado à própria sociedade, pintavam a matemática como algo que fazia mal às pessoas. Hoje penso doutra maneira. Olho hoje para a matemática e digo, afinal isto era fácil. Vejo pelos meus sobrinhos, quando precisavam,  eu ajudava-os. Já me vinguei, tenho um sobrinho que é barra a matemática. O meu sobrinho tem vinte valores a matemática. Tem 10 por ele e 10 por mim.


 

 
Como surgiu o humor na sua vida?
Eu desde sempre quis escrever. Curiosamente, nunca pensei em ir para um palco. Até porque sou muito mais tímido do que aparento. O mercado não era fácil e por outro lado não tinha  conhecimentos na área. Não havia redes sociais. Na altura não havia essa facilidade de chegar às figuras que estavam, que eram o Herman e o Herman. Só havia o Herman (ri). Não conseguindo isso, qual era a segunda hipótese, era começares a escrever para ti. Montei a minha própria marca - Nilton. O Nilton escreve para o Nilton, e o Nilton diz. Hoje existe muita malta nova a escrever para mim, inclusive para o 5 para a meia noite, muitos guionistas que não me conheciam, mandaram-me um e-mail com bons trabalhos e eu aproveitei, e estão hoje em dia a trabalhar e vivem da escrita.




Ter um início de carreira com um espectáculo de 3 meses no Teatro “A barraca”...foi uma barracada?
Foi uma barracada a primeira vez que lá foi o Júlio César e o Raúl Solnado. O Júlio César é o grande responsável pela minha carreira profissional, foi quem me deu o alento e me contratou para o Casino Estoril. Curiosamente, no dia em que ele foi me ver acabaram-se as pilhas do microfone. Fiz o resto do espectáculo com um megafone. Foi a verdadeira barracada. Mas ele achou piada, por eu me ter safado tão bem. Felizmente, essa barracada é que me deu o contrato no Casino Estoril. Foi aí, que percebi, que tinha de apostar na comédia, podendo ganhar a  vida a fazer o que gosto.


A quem dizia “paga o que deves”?
Tanta gente: às finanças, a muitos dos políticos que têm sido responsáveis pelo que aconteceu a este país. O descontrolo que houve aquando da entrada na união europeia. Tenho uma teoria, nós somos um povo (matemática aí faz falta) que não sabe fazer bem contas. Ganhamos o euromilhões e, perdemos o dinheiro todo. Com a entrada na união europeia saiu-nos o euromilhões, e matematicamente erramos porque o dinheiro desapareceu.
 
O matemático Adrian Paenza escreveu: os pais motivam nos primeiros meses os filhos a falar e andar, para nos 12 anos a seguir, dizer-lhes para estarem calados e quietos. O Nilton tem um filho, o Noah, de 3 anos. Como é?
Eu faço ao contrário. Em termos de cabeça incentivo-o a falar muito e a exprimir-se. Dou sempre um bom exemplo, que é fazer-lhe perguntas inusitadas que não são para a sua idade.  Há dias convencio-o a dizer-me qual é a palavra preferida. Estava a explicar-lhe que a minha palavra preferida era “carabinieri”, polícias italianos. Quando ele percebeu, só me dizia “chchi/cocó”. Ele está nessa fase, para ele são as palavras preferidas dele. Depois fui buscá-lo à escola, e disseram-me que ele estava com umas conversas tão estranhas.  Queria saber qual é a sua palavra preferida. Isso vem de onde? Perguntaram-me. Na escola estavam a achar aquilo estranho. Para mim não, sou eu a provocar-lhe o cérebro e obrigá-lo a pensar e a fazer coisas diferentes, que cortam com o hábito dele. Faço e tomo atitudes que ele não está à espera, que cortam com o normal dele e que ele está habituado. Faço-lhe cócegas no cérebro.


 

  
A piada “a matemática não se casa porque só tem problemas”. É uma boa piada?
Eu acho que sim (ri). Eu gosto. Aliás eu tenho uma rubrica para tempo de piadas secas. Eu gosto de piadas secas.
 
O matemático Alfred Rényi disse um dia que "quando estou infeliz trabalho matemática para ficar feliz. Quando estou feliz, trabalho matemática para me manter feliz". O que faz para ser feliz?
No humor e na escrita é um bocado essa a lógica, Tento ter uma perspectiva da vida descontraida e, costumo ter o princípio do daltónico, que olha para o cubo mágico e, ele está sempre feito. É um bocado essa lógica.  Que se lixe, não há-de ser nada, isto vai dar a algum lado. Gosto de fazer o que me apetece, dentro dos padrões e da lógica e, esse principio de vida tem me trazido alguma felicidade. Se eu estiver a fazer o que gosto e me apetece , estarei numa fase boa na minha vida, livre para criar ainda mais. Basicamente é isso, trabalhar dá-me felicidade, fazer coisas que gosto dá-me felicidade.
 
Uma história que nos possa (de)escrever que envolva matemática...
Sobre a matemática, uma vez fiz férias com um casal amigo, eles são engenheiros, dão aula no Porto. Estavam a fazer testes na praia, na última semana de férias, eu achava aquilo girissimo. Eu olhava e dizia que nunca conseguiria fazer isso. Eles com altos problemas de matemática e perguntavam entre si: - o que achas destes? 
Pareciam dois amigos a fazer sodoku ou palavras cruzadas, mas eram problemas de matemática da faculdade. Achei muita piada.


P.S. A entrevista ao Nilton foi realizada nos estúdios do "Programa 5 para a Meia-Noite". Agradecimento especial do clube de matemática da SPM a toda a equipa do programa "5 para a meia-noite".

 

Por Carlos Marinho