Entrevista a Domingos Gomes - Médico
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Publicado a 01 de Junho de 2014

Entrevista a Domingos Gomes - Médico

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O entrevistado do clube spm de junho é o médico Domingos Gomes. Numa conversa musculada, isenta de entorses ou roturas musculares, as únicas operações realizadas ao longo da entrevista são a adição de conhecimentos e ideias de uma vida. Nesta consulta, temas como a infância, a medicina, o F. C. Porto, a família, a matemática são exercícios que dão elasticidade e alongamentos à entrevista. Aqui fica a conversa com o mais carismático médico em Portugal. O diagnóstico está feito sem necessidade de exames complementares de diagnóstico. 

Aqui fica ao Rx, o nosso entrevistado Domingos Gomes...

Se fizermos uma “consulta” à sua infância, o que nos poderia dizer?
Uma infância feliz para a qual concorreu, principalmente, uma família tradicional com valores morais, religiosos e patrióticos, centralizada numa mãe fantástica, num pai dedicado ao semelhante e num irmão dedicado à religião (é padre).

Qual era o comportamento do Domingos Gomes com 10 anos de idade na escola? 
Um comportamento normal para uma criança ativa, interessada, cumpridora, atenta, traquina e bom aluno, com a ajuda do professor Modesto.

Gostava de estudar matemática?
A matemática fazia parte dos planos de ensino, felizmente. Claro que tinha que gostar porque não havia outra hipótese. Mas era um bom aluno e ainda hoje, o que aprendi naquela altura, desde a tabuada até outros princípios me têm sido úteis.


Como surgiu a medicina na sua vida?
No momento de escolher foi importante a referência e o exemplo do pai da minha namorada e atual mulher e, por isso mesmo, o meu sogro Dr. A. Miranda Cabral a todos os níveis. Mas, na sequência do meu comportamento e da minha família pareceu-me que teria vocação e “jeito” para uma profissão que exigia sacrifícios de ordem pessoal, familiar e outros, mas também o semelhante como alvo.


O que o fascina na sua profissão? A receita para se ser um bom médico é…
Parafraseando o que as pessoas gratas transmitem, com a devida dimensão, “poder ser Deus na terra”. Fascina-me poder estar ao serviço do meu semelhante em situações de saúde e doença, independente do sexo, cor, religião, poder económico, através de conhecimentos e atualizações permanentes que permitam resgatar da morte (quando Deus quer) pessoas em situação muito difícil, ou prolongar a vida em condições razoáveis. Por isso mesmo, motivou a escolha de Medicina Interna como minha especialidade, para abarcar desde as crianças aos séniores, desde os fragilizados psicologicamente, às patologias mais diversas e complexas. Tenho-me dado muito bem com isso. A receita para um bom médico é bom senso clínico, a disponibilidade total e, acima de tudo uma dádiva completa e desinteressada.

Nos EUA, os médicos que têm necessidade de tirar uma segunda licenciatura, optam pela licenciatura em matemática. A medicina é uma ciência que depende cada vez mais da matemática?
É evidente que sempre dependeu, não só por análises quantitativas de fenómenos e sintomas mas também devido a certos estudos (p. e. cardiologia) passarem por análises vetoriais altamente complexas. Atualmente a mecanização cada vez maior, ao alcance da medicina, o perigoso diagnóstico ao dispor pelos aparelhos, bem como a investigação a vários níveis, desde as estatísticas fundamentais à programação preventiva e terapêutica nos atos médicos. 

Entender matemática e preservar a saúde não deveria nunca ser um problema, mas…
Será que há razão para o ser? 

 


Foi médico do F. C. Porto durante 23 longos anos. O que sente mais saudades deste período?
Verdade, verdadinha, saudades, saudades não tenho. Não me pergunte por quê! Mas vou responder-lhe que talvez porque não tenha sido uma vida fácil, devido a ter que aplicar regras (matemáticas) desde a alimentação ao tratamento. Mas, como se entenderá, orgulho-me de coordenar um grupo clínico inovador, disponível a toda a hora, de dia e de noite, para jogadores, família, direção e outros e com um espírito de servir o FC Porto e ajudar o início e a continuação de uma instituição vencedora a todos os níveis. Devo informar que durante este tempo e, para que tal assim fosse, houve cerca de trinta médicos que, desde os dentes aos pés, desde o pediatra ao ginecologista, desde o otorrino ao ortopedista, se mostraram sempre abertos a toda a colaboração. Além disso orgulho-me de lutar contra muitos “mitos” instituídos em termos alimentares, terapêuticos, assistenciais, que granjearam respeito e admiração no país e no estrangeiro. Referencio, sim, pessoas como; treinadores, Pedroto, Dr. Artur Jorge, Sir Bobby Robson e adjuntos como Mourinho, Inácio, Otávio, Professor Hernâni Gonçalves, Professor Neto, Professor João Mota e muitos outros. Lembro Homens – jogadores, fabulosos em comportamento mas, principalmente, como pessoas. Não cito nenhum porque de certeza que vou esquecer algum, não quero ser incorreto para outros. Saudades, sim, de amigos, da comunicação social, desde os mais velhos à ínclica geração dos mais novos com os quais me vou encontrando na primavera e no outono de cada ano num convívio. Respeito e admiração pelo Presidente Pinto da Costa (que me convidou para o futebol em 1976) mas também saudades gratas a pessoas que convém ter sempre em mente como: Senhores Alfredo Bastos, Alfredo Borges, Presidente Américo Sá, Teles Roxo, Jeremias Neves, Vasconcelos e também Luis César, Mário Santos, Fernando Brandão, Agostinho e outros funcionários cujo nome se perpetuará na história do clube desde os sapateiros à limpeza e relva. Uma gratidão eterna pelo Dr. Vitorino Santana que me convidou para a natação do FC Porto. Dentro do departamento clínico o Dr. Espregueira Mendes, Dr. Jorge Silva e Dr. Fernando Pinheiro, Dr. Basil Ribeiro, Enf. Rodolfo Moura e Enf. Diamantino Moura, Enf. Vitor Hugo Magalhães e Mas. José Luis. Pôncio Monteiro, Reinaldo Teles, Álvaro Pinto e terminar com a Massa Associativa Portista que perpétua o fenómeno, após 14 anos da minha saída de médico do FC Porto, continuar a sê-lo inclusive, para as gerações mais novas. Seria impensável. É única no mundo do futebol.

Durante 15 anos foi médico do controlo anti-doping da Uefa e da Fifa. Como foi a experiência?
Sendo o primeiro médico a exercer estas funções, na UEFA, indicado pela Federação Portuguesa de Futebol (Presidente Dr. Gilberto Madail), fui adquirindo competências técnicas e ser objeto de respeito das estruturas e das pessoas da UEFA de modo a ser indicado para a FIFA. Fui escolhido muitas vezes para assumir responsabilidades extra, para as quais era selecionado, em locais em que o perigo era constante; calhou bem. Foi muito importante para a valorização pessoal mas, acima de tudo orgulho-me de ser bom para o país que representava. Fui homenageado o ano passado e recordo com gratidão, e aqui sim, com saudades, pessoas de toda a europa e do mundo que me fazem pensar que sou um cidadão do Mundo.

Com uma vida dedicada à medicina e ao desporto, a sua família tem sido…
Uma heroína, na globalidade. A minha mulher, a heroína Mor, casou com um médico que por imagem do pai tinha uma determinada vida. Agora, aparecer uma função em que aos fins-de-semana tinha que acompanhar uma equipa de futebol, altamente competitiva, não estava nos planos de ninguém. Não foi fácil mas quando se é cúmplice na vida tudo se resolve. De qualquer modo fui sempre uma pessoa presente em todas as circunstâncias e sempre tive disponibilidade para compensar em absoluto, por outra via, como levar os meus filhos aos colégios, estar presente em datas imperdíveis e inclusive ter sempre tempo para brincadeiras com eles e conversas com a minha mulher. Apesar de tudo considero-me um pai e um homem presente. Mas estou muito grato porque esta minha família, que agora aumentou com uma neta (Benedita), tem sido a razão da força, do equilíbrio, da alegria da minha vida – Amor e Gratidão eternas.

Com tantos cortes, a saúde em Portugal está em insuficiência cardíaca?
Ainda não, na medida em que os médicos têm uma capacidade fantástica de lutar pelo paciente. O que quer dizer que utilizarão tudo o que está ao seu alcance para que nunca aconteça tal insuficiência. Mas também não acredito que alguém, sabendo o que está em causa (a vida ou a morte do seu semelhante), economize quaisquer meios imprescindíveis e vitais.

O matemático Albert Einstein dizia que “a maioria de nós prefere olhar para fora e não para dentro de si mesmo”. O que acha? 
É um pensamento que continua atual.


Por Carlos Marinho