100 Problemas - José Paulo Viana
Clube de Matemática SPM - Eixos de Opinião janeiro de 2017
Publicado a 17 de Janeiro de 2017


100 Problemas por José Paulo Viana - Três portugueses debaixo de um guarda-chuva (sem contar com o morto)-Parte II

Clube de Matemática SPM - Eixos de Opinião janeiro de 2017                                                        

Clube de Matemática SPM


Título: TRÊS PORTUGUESES DEBAIXO DE UM GUARDA-CHUVA (SEM CONTAR COM O MORTO)-PARTE II

 

 


Na crónica anterior, publicámos a primeira parte do conto de Rodolfo Walsh, que podem ler aqui.

 
Agora, aqui fica a sua parte final, onde se esclarece o mistério policial e se desvenda quem foi o assassino.

11
- Foi você que o matou - disse Daniel Hernández.
- Eu, comissário? - perguntou o primeiro português.
- Não, senhor - disse Daniel Hernández.
- Eu? - perguntou o segundo português.
- Sim, senhor - disse Daniel Hernández.


12
- Um matou, um morreu, os outros dois não viram nada - disse Daniel Hernández. - Um olhava para norte, outro para este, outro para sul, o morto para oeste. Tinham combinado vigiar cada um a sua rua diferente, para ter mais possibilidades de descobrir um táxi na noite tormentosa.


"O guarda-chuva era pequeno e vocês eram quatro. Enquanto esperavam, a chuva molhou-lhes a parte da frente do chapéu."


"O que olhava para norte e o que olhava para sul não tinham de dar volta para matar o que olhava para oeste. Bastava-lhes mover o braço esquerdo ou direito para o lado. Pelo contrário, o que olhava para leste tinha de dar a volta, porque estava de costas para a vítima. Mas, ao dar a volta, molhou a parte de trás do chapéu. O seu chapéu está seco no meio; isto é, molhado à frente e atrás. Os outros dois chapéus só se molharam à frente, porque quando os seus donos se viraram para ver o cadáver, já tinha deixado de chover. E o chapéu do morto molhou-se por completo devido ao pavimento húmido."


"O assassino utilizou uma arma de muito reduzido calibre, um matagatos desses com que os garotos brincam ou que algumas mulheres têm nas suas carteiras. A detonação confundiu-se com os trovões (esta noite houve uma tormenta elétrica particularmente intensa). Mas o segundo português, com uma arma tão pequena, teve que localizar na escuridão o único ponto realmente vulnerável: a nuca de sua vítima, entre o grosso sobretudo e o chapéu enganador. Nesses poucos segundos, o forte aguaceiro empapou-lhe a parte posterior do chapéu. O seu é o único que apresenta essa particularidade. Portanto é o culpado."


O primeiro português foi para a sua casa.
Ao segundo não o deixaram.
O terceiro levou o guarda-chuva.
O quarto português estava morto. Morto.


(tradução de José Paulo Viana)

Existem várias páginas na Internet onde se pode encontrar o texto completo (em castelhano) deste conto. 

Por exemplo:
https://www.pagina12.com.ar/diario/especiales/subnotas/3215-1675-2002-03-25.html
que tem a vantagem de ter mais alguns escritos de Rodolfo Walsh e, sobretudo, uma curta autobiografia.


Encontrei este conto, há já muitos anos, em Snark, um fórum de discussão de resolução de problemas e gostei muito dele. Investigando mais tarde sobre Walsh, descobri que havia muitas coisas nele de que eu gostava. Infelizmente, não existem traduções das suas obras para português. Aqui há tempos, através da net, comprei os seus “Cuentos Completos” (Veintesiete Letras, Madrid, 2010).

Sobre Rodolfo Walsh



Nasceu a 9 de janeiro de 1927, em Choele–Choel (Argentina). Foi jornalista e escritor de contos, crónicas, peças de teatro e livros de investigação e denúncia de casos de escândalos, de crimes políticos e de terrorismo de estado.


Fundou, juntamente com outros escritores e jornalistas sul-americanos (incluindo Gabriel Garcia Marques) a agência de notícias Prensa Latina.


Militou ativamente na resistência à ditadura militar argentina (1976-1983).


Um dia depois de publicar a Carta Aberta de um Escritor à Junta Militar, foi assassinado em plena rua de Buenos Aires por um pelotão especializado da polícia. Eram duas horas da tarde do dia 25 de março de 1977. O seu corpo nunca apareceu.


Mas ficaram os seus escritos.




Para mais pormenores, bastante completos e interessantes, sobre a vida e obra de Rodolfo Walsh, aconselhamos a respetiva página da Wikipedia em castelhano. Também existe uma página em português (do Brasil…) que é a tradução da anterior.