Quadrantes por Francisco Fernandes
Clube de Matemática SPM - Dezembro de 2017
Publicado a 28 de Dezembro de 2017

 



Este espaço pretende narrar “estórias” de personagens históricas, “estórias” que vão além do plano formado pelos eixos espaço e tempo, localizados em quadrantes diferentes da historiografia tradicional, permitindo aos seus leitores, um aprofundamento da compreensão e humanização de diversos episódios da história da humanidade.   

Francisco Fernandes - Arqueólogo e Professor de História 


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Quadrantes por Francisco Fernandes - Terá Jesus nascido a 25 de dezembro?

Clube de Matemática SPM - Dezembro de 2017

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Título: Terá Jesus nascido a 25 de Dezembro? 


No dia 25 de dezembro, segundo o calendário gregoriano, 2,18 biliões das cerca das 7 biliões de pessoas deste mundo, celebram o nascimento de Jesus Cristo, uma festa denominada Natal.

Esta é uma das datas mais importantes e mais celebradas em todo o mundo, pois natal significa nascimento, neste caso o de Jesus Cristo.

Mas terá Jesus Cristo nascido efetivamente no dia 25 de Dezembro? Porque se celebra o seu nascimento nesta data?

Para conhecermos a vida e o nascimento de Jesus temos de ler a principal fonte histórica que relata a vida de Jesus, a Bíblia, e mais concretamente, o Novo Testamento, sobretudo os Evangelhos de Mateus e Lucas. Contudo, esta fonte histórica deve ser lida sempre com bastantes reservas. 

Em Lucas 2:1-14, encontramos um dos textos mais conhecidos sobre o nascimento de Jesus: Lucas explica a ida para Belém por José e Maria, para responder a um recenseamento imposto por Otávio César Augusto, 1º imperador de Roma; como Maria deu à luz uma criança, seu primogénito e que a envolveu em panos e colocou-a numa manjedoura, porque não tinham tido lugar nas hospedarias; e de como um anjo anunciou aos  pastores que estavam a tomar conta dos rebanhos nos campos próximos que o Salvador do mundo que havia nascido.

Contudo, em nenhuma passagem da Bíblia encontramos a informação da data exata do nascimento de Jesus. Mesmo assim, os seus textos fornecem evidências que parecem comprovar que Jesus não terá nascido a 25 de Dezembro, no início do inverno.

A primeira está relacionada com o próprio censo obrigatório decretado por Otávio, normalmente realizado com o intuito de arrecadar impostos e recrutar homens para o exército. Um decreto por isso impopular e que causava insatisfação, sendo por isso pouco provável que fosse decretado no inverno, evitando viagens longas nessa época mais inóspita, pois todos teriam que se recensear na sua terra natal.

A segunda evidência está relacionada com o relato que os evangelhos fazem dos pastores que estavam ao ar livre a vigiar os seus rebanhos de ovelhas. Segundo outras fontes históricas, os rebanhos na Judeia apenas ficariam ao ar livre uma semana antes da páscoa judaica, o que ocorre sempre a partir do final de março, até meados de novembro, ficando assim os rebanhos no inverno recolhidos em estábulos ou noutros abrigos.

Assim, através destas duas evidências, parece claro que Jesus não nasceu efetivamente a 25 de Dezembro, existindo autores que apontam o seu nascimento no início do outono, apoiando-se numa contagem regressiva a partir da data da sua morte, enquanto outros apontam para o mês de abril.

Mas porquê foi então escolhida esta data?

A data foi estipulada pela Igreja católica no século IV, mas precisamente no ano de 350, através do decreto do papa Júlio I, durante a governação do imperador Constantino, o mesmo imperador que em 321 decretou o fim das perseguições aos cristãos.

A data escolhida tem como função enfraquecer outras celebrações consideradas pagãs realizadas na mesma data, sobretudo as Saturnálias, festividades romanas em honra do deus Saturno, que tinham uma enorme importância, pois celebravam o fim do ano agrário e religioso somados ao fim do ano velho e início de um novo ciclo, na expectativa que as colheitas fossem pródigas, numa sociedade em que a agricultura era a base da mesma.

Além dos sacríficos, também nas Saturnálias, se realizava um banquete público, se visitam os amigos e trocavam presentes, ficando todos os cidadãos nesses dias em igualdade, fossem eles cidadãos ou escravos.

Compreende-se assim a substituição das Saturnálias pelo Natal, pois o mesmo espírito está presente em ambas as festividades, a alegria, o nascimento e a vida, a regeneração e a dádiva entre todos os homens iguais entre si.