Quadrantes por Francisco Fernandes
Clube de Matemática SPM - Janeiro de 2018
Publicado a 28 de Janeiro de 2018

 



Este espaço pretende narrar “estórias” de personagens históricas, “estórias” que vão além do plano formado pelos eixos espaço e tempo, localizados em quadrantes diferentes da historiografia tradicional, permitindo aos seus leitores, um aprofundamento da compreensão e humanização de diversos episódios da história da humanidade.    

Francisco Fernandes - Arqueólogo e Professor de História 


Dia 28 de cada mês

                 


Quadrantes por Francisco Fernandes - Os Lusitanos, Antepassados dos Portugueses, ou nem por isso...

Clube de Matemática SPM - Janeiro de 2018

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Título: Os Lusitanos, antepassados dos portugueses, ou nem por isso...


Tradicionalmente, os Lusitanos são considerados os antepassados dos portugueses. É comum ouvirmos o adjetivo luso para classificar os portugueses e as suas obras e feitos. Mas seremos nós portugueses os descendentes dos lusitanos ou é apenas mais um mito criado pela nossa historiografia? 

Luso deriva do latim Lusus, um antropónimo que significa Lusitano, nome dado pelos romanos aos povos que habitavam uma região da Península Ibérica, denominada Lusitânia, cuja primeira referência data do século II a.C. nas Histórias de Políbio, uma das 40 obras geógrafo e historiador originário de Megalópolis, atual Sinanu na Grécia.

Este região, situada entre os rios Douro e Tejo partindo da Serra da Estrela para a Meseta Ibérica, era habitada, antes da ocupação romana, por vários povos e comunidades da Idade do Ferro, com similitudes culturais, linguísticas, e económicas mas possuírem escrita e uma unidade política que agregasse estes povos proto-históricos.

No fundo, a Lusitânia foi o nome que gregos e romanos antigos deram à extremidade ocidental do mundo conhecido. Só com a conquista e domínio romano deste território é que foi aprofundando o conhecimento sobre o mesmo e se foram deixando referências históricas sobre os povos que aqui habitavam, seus usos e costumes.

A criação no século I a.C. da província romana da Lusitânia, região a sul do Douro até à atual Estremadura espanhola, muito contribuiu para a generalização do mitónimo para designar todas as comunidades que aqui habitavam. Uma das personagens que a nossa historiografia mais utilizou para associar os portugueses aos antepassados Lusitanos foi Viriato. Viriato foi retratado sobretudo pelo Estado Novo, como um pastor dos Montes Hermínios, valoroso guerreiro que unificou os Lusitanos na luta contra os invasores romanos, tendo-os derrotado diversas vezes, até ser atraiçoado. 

Este mito ganhou corpo sobretudo a partir de 1940, ano do duplo centenário, da Fundação e da Restauração de Portugal, ano em que foi erigida uma estátua a este “pai” fundador na famosa Cava de Viriato perto de Viseu.

Contudo, nem Viriato foi um pastor, nem nasceu no Montes Hermínios e não há certezas de que os Monte Hermínios sejam, sem dúvida, a serra da Estrela. Viriato era de facto um Lusitano, não porque se considerasse Lusitano, mas porque os romanos o designavam como tal, tal como faziam a todas as comunidades da região entre o Alentejo, Estremadura espanhola e Andaluzia, região de onde era originário. Segundo filho de um chefe tribal, teve de se tornar salteador pois não tinha direito à herança paterna, adquirindo um vasto conhecimento do território e experiência guerreira. 

Foi nesta região que se registaram os acontecimentos bélicos que opuseram os povos locais aos romanos, tendo Viriato sido aclamado chefe desse grupo de Lusitanos, fruto das suas diversas vitórias, até ser atraiçoado, levando à conquista desses terras pelos romanos em meados do século II a.C.. Esta traição a Viriato foi também realizada pelo Estado Novo que, após a glorificação deste “pai” ancestral, renegou este chefe indígena que se revoltou contra o imperialismo estrangeiro, pois era difícil não encontrar similitudes com a Guerra Colonial, tendo mesmo a figura de Viriato desaparecido dos manuais de História a partir de 1968.

Assim, não existindo uma ligação direta entre os Lusitanos e Portugueses, ainda muitos de nós terão uma costela ou duas dos povos que eram apelidados de Lusitanos, sobretudo no sul do país, ao contrário do autor deste texto que é afirmadamente um galaico.