Entrevistado de Julho - O árbitro internacional Artur Soares Dias
Publicado a 01 de Julho de 2011

Entrevistado de Julho - O árbitro internacional Artur Soares Dias

     


Mês 7, quarto número primo, leva-nos de novo ao mundo do futebol, em particular à arbitragem. O futebol faz girar o mundo. Se o matemático Galileu vivesse nos dias de hoje era capaz de afirmar que a Terra gira em torno da bola de futebol, em vez do Sol. Ou então, a histórica maçã que caiu na cabeça de Newton, fazendo-o descobrir a lei da gravidade, seria mais provável que lhe caísse uma “Jabulani”. Ou Euclides com seu monumental Stoichia (Os elementos, 300 a. C.)   que resistentemente escreveu uma extensa obra de matemática com treze volumes...seria certamente incapaz de registar a polémica que por vezes envolve este desporto.

 

Artur Soares Dias, 31 anos de idade, árbitro internacional é a nossa figura. Numa entrevista repleta de paixão pela família e pela arbitragem,  traduz com fórmulas muito  simples a defesa dos árbitros e do futebol.

Este é o apito inicial com Artur Soares Dias...


O que nos pode “contar” da sua infância?

Posso contar que foi uma infância feliz repleta de momentos de partilha, convívio e amizade com a minha família e amigos. Ainda hoje considero esta a melhor maneira de ocupar os poucos momentos de tempo livre que tenho! Em criança a maioria desses momentos, especialmente com os amigos, foram passados com jogos de rua, como futebol, escondidinhas, apanha, etc, que no dia de hoje infelizmente já pouco se vêem! Tenho receio que os meus filhos não possam ter essa oportunidade de aprender a conviver, competir e partilhar com os amigos nesses jogos em detrimento das playstation, nintendo, internet e afins!


Em criança tinha jeito para jogar futebol e/ou já mostrava apetência para arbitrar?

Não posso dizer se teria jeito para apitar porque nessa altura os meus interesses eram outros como o futebol e o basquetebol. Nesse momento nunca me passaria pela cabeça a ideia de que poderia vir a ser árbitro, muito menos internacional! Ainda hoje me espanta quando existem cursos de árbitros e verifico que temos candidatos com 13,14 e 15 anos. Custa-me a entender como estão ali sabendo-se como são os árbitros tão mal tratados pela sociedade em geral.


Alguma vez um professor de matemática lhe mostrou um cartão amarelo... o Artur gostava de matemática?

Tenho que confessar que a matemática nunca foi o meu ponto forte. Por causa da Matemática do 12º ano não entrei no curso de Desporto do FCDEF por ter reprovado no exame nacional. Curiosamente no ano seguinte consegui terminar a disciplina com média de 15, mas mesmo assim ainda existiram alguns professores que me mostraram alguns amarelos ao longo dos anos!


Ainda se lembra do Teorema de Pitágoras?

Boa pergunta! Após alguns momentos de reflexão, recordei-me que é um teorema que relaciona os três lados de um triângulo, defendendo que  num triângulo rectângulo o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos, é correcto ou falta alguma coisa? Pensando mais um pouco acho que deverá faltar mais algum detalhe...


Há 2500 anos Pitágoras provou o seu Teorema que tem o seu nome que justifica um dos principais movimentos do árbitro no terreno de jogo, correr sempre na diagonal...

É uma relação interessante uma vez que confirma-se que o árbitro deverá deslocar-se sempre realizando uma diagonal do terreno de jogo, desenhando assim um triângulo. Este triângulo fica composto por mais duas linhas, sendo uma delas ocupada por um árbitro assistente e a outra mesmo não tendo presente nenhum elemento da equipa de arbitragem, é possível obter bons resultados e boas decisões através da interligação entre o árbitro e o árbitro assistente. Assim como no teorema de Pitágoras é possível obter os cumprimentos de uma das partes do triângulo através da soma das restantes partes.


O ramo das probabilidades e da estatística é uma ferramenta importante para o futebol. Concorda?

É uma das ferramentas que por norma utilizo semanalmente nas preparações que realizo em conjunto com a minha equipa. Todas as semanas após receber a indicação do jogo que irei apitar iniciamos um longo processo invisível à maioria das pessoas onde é utilizada a estatística e as probabilidades. Como exemplo posso adiantar que as equipas que iremos apitar são esmiuçadas na medida dos nossos conhecimentos e das informações disponíveis com o objectivo de conseguirmos estar melhor preparados para os desafios que nos possam surgir durante os 90 minutos. Se tivermos noção que o jogador Y por norma marca um golo por jogo com o pé direito, com um pontapé colocado no corredor central, poderemos antecipar a nossa movimentação para nesse momento o árbitro ter a melhor posição perante o movimento realizado. Igualmente o árbitro assistente no momento do remate pode ter uma noção mais correcta se a bola transpõe a linha de golo no caso de mesma bater na barra e, consequentemente no solo e sair!

 

Lembra-se como e quando “equacionou” a opção pela arbitragem e que contributo teve o seu pai nesta decisão?

Sem dúvida alguma se hoje sou árbitro é por influência indirecta do meu Pai. Refiro e realço indirecta uma vez que o meu Pai não desejava que fosse árbitro, assim como eu desejo que um filho meu não o seja. As razões facilmente qualquer um dos leitores poderão imaginar, tendo em conta a realidade sócio- desportiva do nosso País e a imagem pejorativa que a classe da arbitragem tem! Recordo-me que tomei a decisão de abraçar a arbitragem após uma experiência como jogador de futebol e de basquetebol menos bem sucedida. A proximidade com esta realidade fim-de-semana após fim-de-semana através do meu Pai e a curiosidade por um mundo tão problemático e controverso foram factores decisivos para a ligação à arbitragem!


A licenciatura em Recursos Humanos foi importante para entender e dominar todas as variáveis do jogo de futebol?

A licenciatura em recursos Humanos permitiu-me obter capacidades, qualificações e conhecimentos que sem margem para dúvidas permitem-me entender, perceber, dominar e gerir situações mais complexas. A ausência destes conhecimentos tornaria mais difícil e, eventualmente com menos sucesso do que aquele tenho tido. Problemáticas como tomada de decisão, gestão de conflitos, liderança ou comunicação entre outras são áreas estudadas na licenciatura de Recursos Humanos na perspectiva das organizações, no entanto, são transversais a um jogo de futebol.


A sua actividade profissional de todos os dias tem também a ver com liderança. O que faz concretamente?

Enquanto Director de Recursos Humanos tenho a responsabilidade de zelar por diversas áreas. Na minha opinião uma das mais importantes é ser um exemplo enquanto potenciador dos valores e da cultura organizacional da Empresa. No entanto, existem outras como a gestão da comunicação interna, a saber, processamento salarial, gestão da formação, definição do plano de carreiras entre outras. Nunca devemos esquecer a responsabilidade social que cada uma das organizações deverá ter em conta e, por vezes algumas delas se esquecem de potenciar no nosso dia-a-dia.


Atingiu a internacionalização na arbitragem aos trinta anos. Que emoções sente um árbitro quando atinge este patamar?

A internacionalização é, sem dúvida alguma, o patamar que qualquer árbitro ambiciona quando inicia a sua carreira, digamos que é como um jogador que consegue atingir a Selecção Nacional. Ao dia de hoje existem somente 9 árbitros internacionais em Portugal, como tal estamos a referir-nos a um reduzido número de elementos que conseguem atingir este patamar. É uma verdadeira elite! Nesse dia recordo-me que senti um enorme orgulho pela distinção mas também um enorme peso, pois a partir desse dia iria representar o País além fronteiras e, isso para mim significa uma enorme responsabilidade.


A arbitragem portuguesa é apelidada como uma das melhores na Europa e no Mundo. Até onde pode chegar o Artur Soares Dias a nível internacional?

Fico contente em responder a esta pergunta pois sinto que existe alguém em Portugal que está atento aos factos e feitos que temos vindo a alcançar ao nível da arbitragem e que muitos porventura distraídos não verificam ou não querem ver. Recentemente tivemos um árbitro no Campeonato do Mundo que atingiu os quartos de final dessa competição, tivemos nas ultimas duas épocas da Champions League dois árbitros portugueses a apitar as meias-finais que é a mais importante competição da UEFA. Mesmo assim a arbitragem Portuguesa ainda é vista por muitos a nível nacional como o parente pobre quando de facto apresenta melhores resultados comparativamente a outros intervenientes. Estamos por isso a falar de uma arbitragem que está inserida e considerada como uma das melhores da Europa e do Mundo. Particularmente a nível internacional tenho como objectivo chegar a uma final da Liga dos Campeões!


René Descartes afirmou que se deve “buscar a verdade e duvidar de tudo o que pareça incerto ou duvidoso”. O problema para o árbitro é que por vezes existem muitas verdades e diferentes análises num só lance...

Eu próprio durante o jogo tento sempre buscar a verdade, mas inúmeras vezes duvido de algumas situações por me parecerem incertas e duvidosas, mas mesmo assim tenho que tomar a decisão nesse segundo! A problemática da arbitragem é esta mesma, pois ao contrário de um juiz, o árbitro não pode solicitar tempo para apreciar os factos e tomar a decisão mais correcta! É esta condicionante que a sociedade deveria ter na mente no momento de criticar dando o benefício da dúvida ao árbitro, algo que raramente acontece! Tenho por hábito nos jogos que dão na televisão após o seu final visualizá-los de imediato, fazendo desta forma uma análise auto-critica das diversas situações e decisões. Confesso que já existiram alguns jogos em que dou por mim a pensar que não foi aquele jogo que eu apitei horas antes... e que algumas situações que estou a ver na TV passaram-me completamente despercebidas no campo!


Não poderia deixar de mostrar a minha satisfação pelo convite endossado, e mostrar o meu reconhecimento pelo trabalho que Clube de Matemática tem vindo a realizar. De igual forma gostaria de aproveitar este momento para homenagear publicamente todo o apoio que tenho recebido da minha família, pois sem eles os sucessos que tenho vindo alcançar nunca os conseguiria atingir! Se a vida de árbitro é difícil acreditem que a vida dos familiares é igual ou pior. Para além do sofrimento que advém das injustiças e comentários menos agradáveis que vão ouvindo, sofrem também através das inúmeros momentos que se vêm privados da nossa companhia.