Entrevista a Miguel Abreu - Matemático e Presidente da SPM
Publicado a 01 de Setembro de 2011

Entrevista a MIguel Abreu - matemático e Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática


   

Kyoto  - Fevereiro 2011

Leiden - Agosto 2010

Rio de Janeiro - Agosto 2007


No arranque do ano lectivo 2011/2012 o Clube SPM entrevista o matemático e actual Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática Miguel Abreu, é +/- como se o Clube SPM jogasse em casa. Família, matemática, investigação, SPM, Nuno Crato até ao glorioso Benfica, Miguel Abreu fala de tudo sem precisar de máquina de calcular. Há entrevistas que são uma incógnita por descobrir, esta é possível e determinada com soluções absolutamente positivas. Poderia ter sido jogador do Benfica ou piloto de fórmula 1, mas o bólide que conduz a grande velocidade tem mais a ver com números e a matemática. Tem a palavra o professor catedrático do IST Miguel Abreu...


O que nos pode “contar” da sua infância?

Foi uma infância muito feliz, enquadrada numa família unida e com muita vida de bairro. Até aos 7 anos vivi em Lisboa, Tancos, Carcavelos e Angola, tendo depois assentado em Oeiras. A seguir à escola e aos trabalhos de casa, passava grande parte do tempo na rua com os amigos a jogar futebol. Gostei sempre muito de praticar e ver desporto. Quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande respondia invariavelmente “jogador de futebol ou piloto de Fórmula 1”. Percebi rapidamente que não tinha o talento necessário para o futebol mas, como quase todos os portugueses continuo a achar que sou o melhor condutor do mundo.


O gosto pela matemática começou quando? A partir daí foi em exponencial…

Começou na escola. Tinha jeito e é fácil gostar daquilo que conseguimos fazer bem. Fui aluno no Colégio Militar e tive lá, durante os três anos do ensino secundário, um professor de matemática fantástico: o Dr. José Sena Neves. Marcou-me muito, tanto a nível pessoal como matemático. Ficámos amigos e continuamos a falar regularmente. Depois entrei para engenharia electrotécnica no Instituto Superior Técnico (IST) e ao fim de um ano e meio percebi que só gostava das cadeiras de matemática. Tive a sorte de poder mudar para o curso de matemática que tinha acabado de abrir no IST e a partir daí “foi em exponencial”...


A matemática lá em casa para os filhos foi imposta ou quem sai aos seus…

Não foi imposta e nenhum dos meus filhos foi para matemática, embora tenham sido todos bons alunos na disciplina e escolhido a área de ciências no ensino secundário. Agora já estão os três no ensino superior: a filha em veterinária e os dois filhos em engenharia.


Lecciona no IST. O que ensina em concreto?

Ensino as cadeiras de cálculo e álgebra comuns à quase totalidade dos cursos do IST, bem como cadeiras de geometria para os alunos de matemática. Nos últimos anos tenho dado frequentemente a cadeira de Cálculo Diferencial e Integral I. Tenho tido assim o privilégio de ensinar aos caloiros do IST o Teorema Fundamental do Cálculo, certamente um dos teoremas mais bonitos e importantes, tanto para a matemática como para toda a ciência em geral.


Faz investigação Matemática em Geometria e Topologia Simplética. Consegue explicar devagarinho o que é ou será melhor passarmos à próxima pergunta?

A Geometria e Topologia Simplética tem origem na Física, mais precisamente nos espaços de fase e transformações canónicas da Mecânica Clássica. Estuda propriedades de generalizações desses espaços e transformações. No caso mais simples de espaços de dimensão 2, que inclui por exemplo o plano e a superfície de uma esfera, a Geometria e Topologia Simpléctica estuda propriedades das transformações destes espaços que preservam área.


É presidente da SPM desde 2010, substituiu Nuno Crato empossado recentemente ministro de educação. Como vai ser se o Ministério da educação apresentar soluções falsas ou erradas?

É muito bom que o actual Ministro da Educação e Ciência seja um educador e cientista que conhece bem os problemas e desafios destas áreas. Tem com ele a trabalhar uma equipa com a qualidade necessária para conseguir apresentar as melhores soluções. Acredito que vai ter sucesso, conseguindo melhorar a Educação e consolidar a Ciência.

Como no passado, a SPM estará sempre disponível para colaborar em tudo o que tem a ver com o ensino e investigação da matemática.


O que faz a “SPM – Sociedade Portuguesa de Matemática” em concreto?

A SPM faz o que está especificado nos seus estatutos: promover o ensino, investigação e divulgação da matemática. Exemplos concretos na área do ensino são a formação de professores, acreditação de manuais escolares e análise das provas nacionais de avaliação. Na investigação, a SPM promove, apoia e divulga a organização de encontros científicos e contribui para a representação da comunidade matemática portuguesa em organizações internacionais, como a União Matemática Internacional e a Sociedade Europeia de Matemática. Na divulgação, temos por exemplo as Tardes de Matemática e o Clube de Matemática da SPM. Temos também actividades transversais a mais do que uma destas vertentes, como as Olimpíadas de Matemática, os Encontros Nacionais e as Escolas de Verão. Temos 3 publicações periódicas (Boletim, Gazeta e Jornal de Matemática Elementar) e lançamos regularmente livros. Apoiamos também as actividades do Seminário Nacional de História de Matemática que é uma secção autónoma da SPM.


As críticas aos exames de Matemática realizados pelo ME têm sido a “face” mais visível do trabalho da SPM. Há uma “série” de problemas neste “domínio”?

Há e estão bem documentados pelos pareceres que o Gabinete do Ensino Básico e Secundário da SPM atempadamente emitiu ao longo dos últimos anos. Devo referir que nos últimos dois anos deram-se felizmente alguns passos para a resolução desses problemas. As provas de aferição e exames nacionais de Matemática de 2011 foram melhores do que em anos anteriores.


A SPM é como a matemática, não se vê, mas todos os dias trabalham muitas pessoas em prol de uma matemática cada vez melhor em Portugal …

É uma enorme verdade e ter oportunidade de o verificar de forma quase diária é provavelmente a coisa mais gratificante de ser presidente da SPM. Assim como o combustível da sociedade do conhecimento e tecnologia de hoje é a matemática, o combustível da SPM é a dedicação e trabalho dos seus colaboradores e sócios.


A matemática é uma disciplina mal amada. Qual é afinal a “raiz” do “problema”?

Só é possível gostar do que se conhece e a matemática só se deixa conhecer passo a passo. Não perdoa falhas em qualquer desses passos. Quando elas acontecem ou são logo corrigidas e ultrapassadas ou acabam por estragar definitivamente a relação. A matemática torna-se fria e distante e deixa-se de gostar dela.


A máquina de calcular deveria ser um medicamento. Lá diz o ditado bem português “não morre da doença morre da cura…”

Considerando a máquina de calcular como um medicamento, deve-se ter em conta as suas muitas contra indicações e graves efeitos secundários. Torna-se facilmente num vício e inibe o desenvolvimento dos neurónios. A sua distribuição por estudantes do ensino básico não devia ser permitida.


No dia 1 de Abril, dia das mentiras, o Clube de Matemática apresentou a ideia de que finalmente haveria desdobramentos na disciplina de Matemática. “Dividir” a turma em dois para “adicionar” mais qualidade …

Pode ser uma boa ideia, principalmente se os desdobramentos tiverem em conta as diferentes necessidades dos alunos, reconhecendo que aqueles que estão mais atrasados ou têm mais dificuldade precisam de um tratamento diferente do que deve ser dado a alunos mais adiantados ou com mais facilidade. O nosso actual sistema de ensino faz muito pouco por estes últimos e esta ideia de desdobramentos podia contribuir para melhorar isso. De qualquer maneira, duvido que possa vir a ser considerada num futuro próximo porque a sua implementação implica um aumento de custos e estamos numa altura em que só se pensa em redução da despesa.


Para quando um teorema ou um corolário para o sucesso da matemática em Portugal?

Já há casos de sucesso da matemática em Portugal. A recente medalha de ouro obtida nas Olimpíadas Internacionais é um exemplo, mas podia dar muitos mais, tanto no ensino como na investigação e divulgação da matemática. É óbvio que há muito para melhorar em todas estas áreas, mas não acredito que existam fórmulas mágicas para o fazer de um momento para o outro. Acredito em dedicação e trabalho, com qualidade e continuidade.


Os matemáticos também gostam de futebol. O seu clube é o Benfica. Vamos a contas…que Benfica vamos ter esta época?

Tendo em conta aquilo que já fez no início desta época, espero um Benfica a praticar bom futebol, com capacidade para vencer todas as competições nacionais e passar pelo menos a fase de grupos da Liga dos Campeões. Desejo também o sucesso de todas as equipas portuguesas ainda envolvidas nas competições europeias, bem como o apuramento da selecção nacional para a fase final do Europeu de 2012 onde teria todas as condições para conquistar o primeiro grande título de futebol sénior para Portugal.


Um problema matemático: O Fábio Coentrão é vendido ao Real Madrid por 30 milhões de euros, 15% desta verba é … (deve evitar o uso da máquina de calcular)

15 vezes 3 são 45, pelo que 15% de 30 milhões euros são 4,5 milhões de euros.


O Clube de Matemática é um bom “plano” que intersecta…

...qualquer pessoa.


Afinal de contas qual é o “limite superior” do Miguel Abreu para com a matemática?

É grande, mas finito. É o limite que imponho à minha profissão que, de acordo com um estudo feito em 2009 pela CareerCast.com, é a melhor profissão do mundo. Para mim é só a terceira melhor. As duas primeiras continuam a ser jogador de futebol e piloto de Fórmula 1.