Poemática por Nuno Guimarães
Publicado a 15 de Novembro de 2011




 


E a matemática pediu namoro à poesia, mostrando-lhe todas as suas qualidades que passavam por sinais aritméticos de riqueza, campos cheios de raízes quadradas e um coração infinito, onde cabiam todos os números perfeitos, como convém a quem se quer apaixonar. Ela, a poesia, achou-lhe graça. Encontrou-lhe alguma métrica e deixou-se deslizar em hipérboles que sendo linguísticas a levaram a exageros que nem o teorema de Pitágoras conseguira resolver. As incógnitas desta relação eram muitas, atendendo às suas personalidades ímpares, com números primos à mistura. Foram vivendo numa matriz de entendimento construída por rimas pouco lógicas e amores em fracções de denominador comum que sustentavam médias de paixão numa POEMÁTICA difícil de teorizar…

Nuno Guimarães - ex-engenheiro, leitor de Português nas Universidades de Vilnius e de Vytautas Magnus (Kaunas), com manias de poeta…


Artigo de Novembro


Título: Números de Outono


O Outono chegou preguiçosamente à cidade, com chuva de números miudinhos, quase

 imperceptíveis, que molhavam as folhas virgens de papel, estendidas na minha varanda.

Um perfume numérico invadiu suavemente todas as ruas há muito desejosas de novos cheiros. As

paredes dos edifícios entretinham-se a contar desordenadamente os algarismos. Ao sabor de cada

gota aleatória deslizante, tentavam adivinhar sequências matemáticas que lhes colocassem sorrisos

de felicidade às janelas. Sequências não monótonas, limitadas superiormente por telhados

algébricos vermelhos e inferiormente por graníticos passeios que se transformam em rios onde os

números, em brincadeiras irreverentes, se organizam em progressões aritméticas. As operações

simples saíram dos cadernos da primária e pasmadas olhavam para aquela desorganização numérica

sem perceber se alguma regra prevalecera na determinação da ordem. Repórteres dos jornais

 fotografavam. As televisões interrompiam emissões e em directo, davam conta do acontecimento

matemático, num Outono até ali seco de eventos que justificassem intervenções não programadas.

No céu ainda carregado de cinzento, uma plateia de figuras esfumadas riam, trovejando com pigarro

atravessado nas gargantas. Os contornos eram lineares e brilhantes, relâmpagos desenhando

Arquimedes, Bernoulli, Copérnico, Descartes, Einstein, Fibonacci, Galileo, Hook, Jacobi, Kepler,

Lagrange, Newton, Pitágoras, Riemann, Thales, Weber, Zenón… sequência alfabéticas,

 interrompidas aqui e ali por ausência de nomes entretidos a sonhar.

Eu, ando por ali, registando loucuras. Conto, descubro, equaciono, seco as folhas de papel

desvirginadas pelos números miudinhos que choveram numa cadência poética dum Outono que

preguiçosamente chegou à cidade. Neles descodifico este texto que não sendo perfeito é por certo

 uma sequência limitada e finita de palavras criptograficamente deixadas pelos poetas que

 matematicamente, dos céus, me contemplam…





Artigos de meses anteriores:


Artigo poemática de novembro "Números de Outono" -  dia 15

 

Artigo poemática de outubro - dia 15


Artigo poemática de setembro - dia 15