Poemática por Nuno Guimarães
Publicado a 15 de Janeiro de 2012



 


E a matemática pediu namoro à poesia, mostrando-lhe todas as suas qualidades que passavam por sinais aritméticos de riqueza, campos cheios de raízes quadradas e um coração infinito, onde cabiam todos os números perfeitos, como convém a quem se quer apaixonar. Ela, a poesia, achou-lhe graça. Encontrou-lhe alguma métrica e deixou-se deslizar em hipérboles que sendo linguísticas a levaram a exageros que nem o teorema de Pitágoras conseguira resolver. As incógnitas desta relação eram muitas, atendendo às suas personalidades ímpares, com números primos à mistura. Foram vivendo numa matriz de entendimento construída por rimas pouco lógicas e amores em fracções de denominador comum que sustentavam médias de paixão numa POEMÁTICA difícil de teorizar…

Nuno Guimarães - ex-engenheiro, leitor de Português nas Universidades de Vilnius e de Vytautas Magnus (Kaunas), com manias de poeta…


Artigo de Janeiro 

 

                 Título: Números em Catadupa 



quando o silêncio invade

os domínios dos sentidos

o tempo para e se lava

nos neurónios esquecidos

esgotados pela vida


e os números em catadupa

caem do céu da boca

fazendo murmúrios na língua

que canta em lengalenga 

as matemáticas idas

das contas do meu passado:

cinco amores

e muitas dores

sete vidas

poucos gatos

muitos ratos

nos retratos

roendo as sulfamidas

para almas possuídas


dois pudores

envergonhados

da lista dos dez melhores

duma revista estrangeira

três viagens

e bagagens

cheias de coisas menores

arrumadas à maneira

no comboio dos horrores 

trinta e três

dizem doutores

nomeados desertores

das medicinas modernas

e um homem das cavernas

que quando o silêncio invade

os domínios dos sentidos

risca carneiros nas pedras

para não adormecer

em traços que são proibidos

e me vão endoidecer




 

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Artigo poemática de Dezembro - "Uma progressão de Natal"


Artigo poemática de novembro - "Números de Outono"

 

Artigo poemática de outubro - "Teorema dos Amor dos Conjuntos Infinitos"


Artigo poemática de setembro - "As Contas Todas"