Entrevista a Álvaro Costa -Radialista da Antena 3 e apresentador de TV
Publicado a 01 de Fevereiro de 2012

Entrevista a Álvaro Costa -Radialista da Antena 3 e apresentador de TV


     

O nosso entrevistado é Álvaro Costa da Antena 3. Responsável pelo programa de Rádio "Bons rapazes" fazendo equipa com Miguel Quintão, foi apresentador de um dos programas de maior sucesso na televisão pública, a Liga dos Últimos. O nosso convidado leva-nos numa viagem, dos anos 80 até aos dias de hoje, da BBC até à Antena 3, da infância até á "Liga dos Últimos"...do mundo imaginário ao real...passando sempre pelo mundo fascinante da Rádio. Tudo isto numa extraordinária entrevista a não perder, para ler...e "ouvir" com muita atenção. Uma entrevista que bem podia fazer parte daquele slogan "Pare, escute, Olhe e...já agora leia com muita atenção". A energia, o brilho nos olhos, a paixão que o nosso entrevistado empresta à conversa dá a sensação que faz rádio à pouco tempo, mas já lá vão mais de trinta anos. Albert Einstein dizia que "the imagination is more important than knowledge", o nosso convidado tem ambas as características de sobra. Álvaro Costa certamente tem muito para aprender ainda, mas tem muito para ensinar à novas gerações. Sintonizamos agora na entrevista, tem a palavra Álvaro Costa...

O que nos pode contar da sua infância?

Foi uma infância muito interessante, vivida em Vila do Conde, nas Caxinas, muito à beira-mar, com muito espaço…a que eu chamo o realismo mágico de Garcia Marquez, Jorge Luis Borges, Cotozar. Vila de Conde anos 70, muito neivoeirenta, muito mística, isolada. No nosso país, vinte quilómetros eram para aí uns 300. Era uma sensação de espaço muito grande. Uma infância muito virada para a rua, para o mar, para muitas actividades. Foi um universo meio gótico. Vila de Conde, é um lugar, não sei bem porquê, tem uma grande dose de loucura e, eu acho que bebi isso. Foi uma infância muito biológica. Apenas um canal de televisão, muito virado para a rádio. Do ponto de vista de comunicação para a leitura. Esperava pela biblioteca itinerante que viajava numa carrinha peugeout de 15 em 15 dias. Em síntese, ar livre, desporto, o misticismo vilacondense e rádio.


O Álvaro Costa na escola a matemática estava em que liga…dos últimos?

Mais do que último. Fui péssimo a matemática. Incapacidade total a matemática. Não sei porquê. Sempre fui um humanista, mais virado para as letras, história, geografia, português, filosofia. Adorava geografia, porque me permitia viajar sem sair do sítio. Não havia grandes oportunidades de viajar nessa altura, como viria a acontecer anos mais tarde.


Como eram as aulas de matemática nas décadas de 60 e 70?

Como todas as aulas na altura havia uma ligação muito pessoal, apanhei o liceu antes do 25 de Abril. Não quero dizer que os métodos de ensino eram melhores, eram certamente diferentes. Havia muita proximidade. Havia uma divisão muito mais específica entre os alunos que iam para os liceus, isto é, para cursos superiores e os outros que iam para as escolas profissionais e industriais. Estar no liceu na altura era uma “coisinha” mais privilegiada. Não me posso queixar. Eram aulas mais puxadas, havia uma ligação mais social entre professor e o aluno. Havia uma espécie de extensão paternal. Os professores na altura eram uma espécie de pais B. E lembro-me  de ter alguma dificuldade em perceber, sendo um aluno até às vezes brilhante a algumas disciplinas, a razão porque era tão mau nas áreas das ciências.


Recorda algum momento que a matemática o tenha marcado?

Não sei, mas ter tido para aí zero num teste.


Tem uma filha de 12 anos. Como vai a matemática da sua filha?

Péssima. A mesma coisa. Acho que deve ser genético. O meu pai dizia “e a matemática, filho?” O título provável de um livro biográfico que escreva vai ser “E a matemática, filho?” O meu pai dizia “acaba com essas histórias dos artistas, das rádios. Dedica-te à matemática”. A obsessão do meu pai era a matemática.


Quando a sua filha precisa de ajuda, como é?

Já teve e tem uma série de ajudas suplementares. Vai no mesmo caminho do que eu. É muito boa a história, na construção e na criação de textos, na absorção de informação é excelente. Na área de ciências é uma desgraça. Não sei se será genético ou não.


A matemática é para bons rapazes (programa de Álvaro Costa na Antena 3)?

A matemática é para bons rapazes na organização das temáticas. Há uma noção de espaço e tempo que acho fundamental. Nós temos (eu e o Miguel Quintão) uma noção muito exacta do timing, dos tempos, na forma como comunicamos. Até porque um está no Porto (eu) e o outro está Lisboa (Miguel Quintão). É necessário uma organização digamos da estrutura, do tempo das rubricas, o tempo que tenho para comunicar. Hoje é mais importante a gestão do silêncio, a gestão do que não se diz, do que o que se diz. Eu era um profissional muito mais abrasivo, apoteótico, um bocado ópera. Hoje tenho consciência que começo por organizar uma estrutura daquilo que não vou dizer.


Isso é ser um bom rapaz na Antena 3?

É também uma forma de fazer rádio à antiga nos tempos modernos. É uma conjugação de silêncios. A rádio entre aspas antiga era mais próxima, não tinha…repara estás num estúdio aqui. Se repares bem é preciso jogar com isto tudo num plano matemático. Se calhar sou melhor do ponto de vista da gestão matemática do meu trabalho do que no lado prático. Ouvindo a nossa emissão, percebes que há ali, naquele caos, organização, há uma noção muito exacta do tempo, das quantidades, dos timings, dos segundos, dos minutos e, depois há esta gestão tecnológica, como vês aqui com montanhas de sons. Há outro lado, que é a gestão ao segundo da comunicação com o ouvinte através do facebook. O facebook pode ser usado para muitas coisas. Acima de tudo, vejo a gestão numérica, vejo as reacções, faço a contabilidade. Acho que comunicar no século XXI pode ser dramático no sentido da prisão digital, como o digital pode também libertar. É uma questão de entendimento da tecnologia. Repara, tu hoje em muitas rádios, que tecnicamente são superiores a outras (portanto está implícita muita matemática e ciência) se o mundo acabar hoje, existirão rádios que só anunciarão essa notícia no dia seguinte. São todas programadas, tipificadas por zeros e uns. Nós temos, eu e o Quintão, temos essa capacidade de estar com um pé no passado mas ao mesmo tempo, fazer algo muito contemporâneo. Há um jogo duplo, aquilo que eu chamo um retro-novo: rectro, mais próximo, mais pessoal e, é novo uma vez que utiliza as novas tecnologias.


Antena 3, de 2ª a 6ª, às 20 horas. Só números. A matemática presente...

Vivemos numa época muito fragmentada. Para mim é indiferente que as pessoas me ouçam no carro, em casa ou no computador. Podem ouvir no dia seguinte através do podcast. No Youtube. No telemóvel. Vivemos numa época da cultura do híbrido. Cabe ao comunicador entender isso, mais do que estar num púlpito, deve estar mais numa floresta. O comunicador hoje não tem a mesma superioridade entre aspas como antigamente sobre o interlocutor ou ouvinte, uma vez que este está muito bem informado. Eu coloco um artista no ar e tu podes saber de imediato tudo sobre ele. Tens essa vantagem. Há anos atrás eu tinha acesso a informação, revistas que mais ninguém tinha. Hoje já não acontece.


Como foi a experiência na BBC?

Há alguém que se lembre disso? Desde pequeno que tinha uma obsessão pela cultura anglo-saxónica. Agora tenho outros interesses na vida. Quando fui para Inglaterra, fui por um acaso. Ligaram-me a falar de Londres, mas na altura não liguei. Em Maio, confirmou-se  a minha ida para a music box. A BBC aparece porque uma pessoa que eu considero muito, o José Bastos da Rádio Renascença me falou.  Precisamente nessa altura havia um programa para a RR. Quem lá estava nessa altura eram o José Bastos, o José Rodrigues dos Santos, o Fernando Sousa que está em Bruxelas e, uma série de colegas negros que funcionavam para os países lusófonos. Nessa altura, "levo" com o muro de Berlim, com o Gorbachev, levo com a nova Europa. Saia da music box onde passava George Michael e, chegava à BBC onde era tudo muito formal. Aprendi conhecimentos, disciplina, de levar tudo a sério, estar a horas nos sítios. De qualquer maneira fiz muitas entrevistas na área pop. Depois fui para os Estados Unidos para Los Angeles mais 3 anos.


O Matemático alemão Gottfried Leibniz referiu que “a música é um exercício inconsciente de cálculos” ("Musica est exercitium arithmeticæ occultum nescientis se numerare animi"). Alguma vez tinha pensado nisso?

Sim, sim. Cada vez mais. Tu repara que muita música que se faz hoje é um processo tecnológico, mais do que a composição das 7 notas, mais que  toda a estrutura de escrita, hoje temos uma ideia que rapidamente a música é transformada, embrulhada. É um processo tecnológico muito grande.  Hoje tu podes criar música a partir de um telemóvel. Eu sou do tempo que ouvia um disco duma ponta à outra, depois virava-se para o outro lado. Hoje o ouvinte ou espectador tem aquilo que eu chamo o principal programa de rádio e tv que é o comando. As coisa hoje duram muito pouco.


Alguma vez alguém lhe disse "Já me estás a dar música"?

Muitas mulheres… (riso)